Contraluz

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Fotografia: @_goodoldfashion
[Texto originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita]

Espreitou pela porta entreaberta da casa de banho e viu-a de costas para si, com os outrora longos cabelos ruivos molhados e as costas cobertas de sardas curvadas, numa manifestação de desalento e impossibilidade.

Mergulhada na obscuridade do compartimento, procurava com os olhos a iluminação exterior, alguma fonte de luz que lhe permitisse ver novamente, nem que fosse apenas para encontrar a cova onde acabaria por se deitar.

Gostaria de entrar, juntar-se-lhe e passar-lhe uma mão pela pele suave, fresca e húmida, enquanto a ouvia solfejar uma qualquer canção que aprendera com a mãe. Pousar-lhe um beijo no ombro e cheirar-lhe o perfume, ao mesmo tempo que lhe afagava as pontas do cabelo.

Quanto tempo demorariam a voltar a ter um momento de intimidade assim, resultado de uma vontade incontrolável, e não provocado por uma necessidade incontornável?

Um dos dois tinha de manter os pés assentes em terra firme, dar passos seguros em frente, com a mão do outro presa na sua. Para onde um fosse, o outro ia também. Sempre fora assim, assim continuaria a ser.

Cabia-lhe a ele o papel da força, da resolução e da decisão. Cabia-lhe a ele manter os olhos enxutos e a mente liberta para encontrar o caminho que haviam de seguir. Talvez um dia lado a lado, novamente.

Afastou-se da porta em silêncio e deixou-se cair no sofá atingido pela luz de um sol acabado de nascer.

Maravilhava-a a ironia de sentir uma felicidade imensa e de ter de a manter em segredo, por enquanto. Enquanto Vasco subia o fecho do seu vestido, era incapaz de manter os pés quietos, espicaçados pela voz de Elle Fitzgerald, que saía das colunas de som junto à cama.

– Se não estás quieta demoro o dobro do tempo – resmungou, com um sorriso.

Isabel rodopiou nos seus braços, de forma a ficarem frente a frente.

Pousou uma mão no seu ombro direito e pegou-lhe na outra:

– Não tem mal. – Começaram a deslizar sobre o soalho de madeira.

– O vestido vai-te cair…

– Também não faz mal. Porque é verão e a vida é fácil. E um dia vamos poder dizer… – Riu alto. – Que o pai dele é rico…

Vasco riu também, pousando-lhe um beijo na testa:

– E que a mãe é muito muito bonita.

So hush, little baby, don’t you cry.


Conhecera-o por acaso. Cerca de oito anos antes, uma miúda acabada de sair do autocarro, debaixo de uma chuva incessante, chamara-o:

– Espera por mim!

Ele ignorara-a. Talvez por causa do barulho da tempestade, talvez porque não queria ter de a aturar.

– Espera!

Isabel correra atrás dele, o cabelo e as roupas ensopadas, porque a gabardina protegia os cadernos com os apontamentos das aulas. Enfiou um braço por baixo do dele e abrigou-se debaixo do seu guarda-chuva.

– Não me ouviste?

Vasco olhara-a, atónito, sem saber qual a resposta que deveria dar. Após algum escrutínio, respondeu-lhe:

– Não…

Ela encarou-o, de sobrolho franzido, estacando no passeio:

– Não és o meu irmão!

De olhos fixos no verde intenso dos dela, ficou a ouvi-la sem escutar uma única palavra. Sentia ainda o braço esquerdo dela preso na cova do seu cotovelo, abanando os corpos de ambos quando gesticulava, zangada.

– Ouviste alguma coisa do que acabei de dizer?

Vasco sorrira, pegara-lhe nos cadernos e dissera:

– Vamos tomar um café. E já me contas tudo outra vez.


Deu com ela na varanda, o vestido a esvoaçar ao sabor da brisa da noite, com um copo de água com uma rodela de limão pousado ao seu lado. Admirou-lhe o corpo inclinado para a frente, os cabelos tombados sobre o muro cinzento e a elegância das pernas em cima de umas sandálias de salto alto.

Era linda, de qualquer perspetiva. E sabia que a maioria dos homens naquela casa partilhava da sua opinião. Muitos perguntar-se-iam o que via nele. Mas Vasco sabia que Isabel encontrara em si o parceiro ideal para a procriação: alto, mas não demasiado, e de feições caucasianas comuns, sem particulares traços de distinção, o que compunha o quadro físico certo; o facto de vir de uma família com posses, de ter uma inteligência acima da média e de juntar em si as características da paciência, persistência e dedicação punha-o numa posição privilegiada na sua lista de critérios.

Apesar de ser essa a principal razão que o fizera cair nos braços dela, amavam-se, sem dúvida. A família que resultaria desse amor era só mais uma das consequências daquele encontro casual numa tarde de março.

Aproximou-se dela, sedento de alguma frescura naquela intensa noite de verão. Foi quando lhe rodeou a cintura com o braço que percebeu que algo não estava bem: Isabel contorcia-se, mantendo os olhos em alvo e a boca mordida para não gritar.

– O que se passa? – perguntou, aflito, virando-a para si.

Foi então que viu a mancha vermelha que se alastrava pelo azul do vestido. O coração caiu-lhe no chão da varanda. E estilhaçou-se quando descobriu, nos olhos dela, um misto de raiva e de desilusão.


Os pássaros despertavam nas copas das árvores, lançando o seu canto animado e despreocupado pelas ruas até às casas onde as pessoas ainda dormiam, alheios ao despertar indesejado que provocavam. A sua boa disposição, no entanto, contrastava com o silêncio arrepiante que marcou a viagem do hospital até casa que, subitamente, não parecia mais um lugar seguro e de refúgio.

Vasco abriu a torneira e preparou um banho perfumado, na única tentativa de que se lembrou de fazer algo pela mulher, que não reagia.

A apatia tomara conta dela no momento em que entrara na ambulância e não parecia haver forma de a despistar.

Sabia, desde há muito tempo, que a missão da vida dela era ser mãe. E, no momento em que a conhecera, soubera que uma das missões da sua era ser pai dos filhos dela. Três, quatro ou cinco. Nunca tinham chegado a decidir quantos chegavam. Talvez até seis, se ainda tivessem energia e paciência para choros e mudas de fralda. Não conseguia esperar pela altura de pegar na família toda e ir pelo mundo fora, numa autocaravana no verão e para bungalows ou chalés no inverno. Jogariam futebol e basket e aprenderiam a skiar e a patinar. E a nadar, claro. Fariam, aos fins-de-semana, longos passeios de bicicleta que culminariam na melhor recompensa para o exercício: um churrasco no terraço, com direito a mergulhos na piscina.

Da casa de banho chegou um som que o arrancou do torpor em que se deixara cair. A respiração de Isabel tornara-se mais pesada, transformando-se numa sucessão de soluços e, daí, num arfar primitivo, em busca desesperada de ar para respirar.

Correu ao seu alcance, descobrindo-a com as mãos fincadas nas bordas da banheira e a respiração atrapalhada.

Com as calças e a camisa vestidas, entrou para junto dela, abraçando-a por trás com o máximo de força que conseguiu, sem, no entanto, a magoar:

– Calma, respira com calma. Sem pressa…

Inspirou-lhe o cabelo molhado, pousando nele os olhos fechados.

– Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem.

Sentiu-a a abanar a cabeça:

– Não quero mais. Não consigo passar por isto mais uma vez. Podíamos ter agora três filhos, em vez disso, estão todos mortos, como se o mundo me mostrasse que eu sou uma péssima mãe. Não! Que nem sequer tenho o direito de ser mãe!

Vasco engoliu em seco, temendo pelos dois.

Aquele era um objetivo da sua vida, sim, mas não era o único. O mesmo não podia dizer de Isabel.

– O que é que eu vou fazer agora?

Vasco apertou-a mais contra si, incapaz de encontrar as palavras certas para proferir. Por ela… e por ele.

Sentia-lhe a pele eriçada, as gotas de água que lhe escorriam pelo peito. No entanto, queria sentir mais, queria senti-la toda, com os braços à sua volta, as mãos na sua face e os olhos pousados nos seus, numa demonstração de qualquer espécie de sinceridade. Um pouco de verdade, fosse ela qual fosse.

O que era feito de si, se não era mais um meio para atingir um fim? Se não era mais o par ideal para a procriação? Se não era mais o pai dos filhos dela, o que lhe restava?

Enrolou-a numa toalha de turco lavada, penteou-lhe os cabelos com a escova e aconchegou-a na cama, ainda sem roupa. Trocou a sua por uma seca e preparou um chá e duas torradas, para quem as quisesse.

Deixou-a a dormir e sentou-se novamente no sofá, encarando o mundo por uma nesga da janela. Era impressionante como a ausência de vida no interior de uma casa não tinha qualquer influência sobre o resto do universo, que continuava a funcionar perfeitamente, na sua dinâmica quotidiana, sem fim à vista. Mais do que impressionante, era insuportável que Vasco se encontrasse numa encruzilhada, sem saber como seria o seu amanhã, o que e quem o esperava, enquanto todas as outras pessoas pareciam saber exatamente qual o próximo passo a dar.

– Vais voltar a olhar para mim? – ouviu, num fio de voz, atrás de si.

Isabel estava encostada à ombreira da porta da sala, sem roupa, com o cabelo ruivo já seco a brilhar sobre a luminosidade que entrava em casa.

– A olhar para ti? – Levantou-se do sofá e dirigiu-se para ela. – De que estás a falar?

Cobriu-lhe o corpo desnudo com o seu, forçando um abraço protetor, pele com tecido. Arrastou-a de volta ao quarto, com duas mãos firmes, enquanto os braços dela baloiçavam inertes em direção ao chão.


Era verão, novamente. O inverno chegara e partira, lavando um pouco do mundo, renovando-o na medida do possível, que só se torna eficaz quando em colaboração efetiva com quem o habita.

Ajustou o nó da gravata, passou uma mão pelo cabelo negro solto e regressou ao salão, onde a música juntava na pista de dança tecidos colorido e sapatos variados, comemorando uma união acabada de ser celebrada.

Encostada a uma mesa, com um copo de sumo na mão, Isabel abanava muito ligeiramente o seu vestido comprido cor de salmão. Os cabelos tinham voltado a crescer o suficiente para lhe caírem com uma graciosidade serena sobre as costas expostas pela ausência de alças do vestido.

Naquela obscuridade, observando-a sem ser visto, recordou-se da rapariga destroçada que espreitara no banho um ano antes. Sentiu novamente uma vontade incontrolável de a abraçar, de voltar a sentir a pele dela nos seus dedos, de fixar os seus olhos no verde dos dela e de lhe pentear os cabelos molhados.

Aproximou-se, a medo, o coração acelerado dentro do peito, como se fosse a primeira vez que a via.

Era quase.

– Isabel… – chamou, junto ao seu ouvido.

Ela voltou-se com uma lentidão torturante.

– Vasco. – Não foi uma pergunta, nem uma exclamação. Proferiu, apenas, o nome dele, como se o apreendesse para voltar a incluí-lo no seu vocabulário.

Estudou-a, preocupado. Não encontrava o brilho nos olhos que o encantara. O ligeiro sorriso não formou as covinhas que adorava beijar. Os lábios apertaram-se, de forma a manter a barreira entre os dois.

Quis pegar-lhe ao colo, levá-la para longe dali e voltar a pô-la bem, voltar a transformá-la na Isabel que conhecera.

– Como estás?

Desabou em soluços e lágrimas que escondeu com duas mãos magras, de unhas fracas e roídas pelos nervos.

Arrastou-a para um lugar mais resguardado, onde a sentou sobre a almofada branca do sofá de verga.

– O que se passa? – insistiu, sem saber como agir diante dela.

Aquela que fora, em tempos, a mulher com que partilhara a vida, era agora uma estranha frágil e indefesa diante si. Ajoelhado na tijoleira, pegou numa das mãos dela, que manteve firmemente dentro das suas:

– O que se passa? – repetiu.

Isabel limpou o excesso de lágrimas que não lhe permitia abrir os olhos e deambulou-os pelo espaço à sua volta, antes de os fixar em Vasco:

– Já alguma vez deste por ti num sítio sem saber como lá tinhas chegado?

Vasco anuiu.

– Como nos sonhos, não sabes como lá chegaste, simplesmente chegaste e tens de partir daí.

Voltou a anuir.

– E já alguma vez te deste conta de que tu é que foste para esse sítio, mas que, afinal, é o sítio errado? E que tudo aquilo que achavas que querias para a tua vida é uma mentira?

Vasco respirou fundo e pediu-lhe:

– Explicas-me?

Isabel escondeu com a mão os lábios que se contorciam num esgar de dor, antes de prosseguir:

– Tu eras o pai dos meus filhos… Mas depois não eras, porque não os tive. Não os tivemos… Então deixei de saber quem eu era e o que era esperado de mim se não te podia dar o que mais queríamos, aquilo que nos faria felizes. Tentei descobri-lo recomeçando do zero. – Olhou-o longamente, sem conseguir conter as lágrimas. – Mas agora estou mais perdida ainda.

Vasco sentou-se no sofá ao seu lado. Deitou-lhe a cabeça no seu ombro e abraçou-lhe a cintura com receio. As palavras dela ecoavam-lhe dentro da cabeça, repetindo-se uma e outra vez.

Inclinou-se ligeiramente e perguntou, num sussurro:

– Não eras feliz?

Após uma longa pausa, ela respondeu:

– Era. Muito.

– Eu também – confessou ele, por fim. – Estar contigo, viver contigo fazia-me feliz. Eras a maior parte da minha felicidade.

– Mas não consegui dar-te aquilo que mais querias – desabafou ela.

Vasco franziu a testa, que continuava encostada à dela:

– O que é que eu mais queria?

Isabel encolheu os ombros, sublinhando a obviedade da resposta:

– Filhos. Sempre quiseste uma família grande e eu falhei…

Um espasmo percorreu o corpo dele, aplicando-lhe vários choques elétricos que repetiam o último ano sucessivamente. Com um dedo ergueu-lhe o queixo para que se fitassem:

– Eu queria filhos, sim. Mas não era o que eu mais queria na vida. Só quis uma família grande porque era o que tu querias. Não falhaste…

– Mas eu pensei que… – Na boca dela formou-se um oh silencioso, causado por um horror partilhado pelos dois. – Vasco… – murmurou, abraçando-o a medo mas com firmeza, para o impedir de, desta vez, ser ele a partir.

Vasco rodeou-lhe o tronco com os braços, apertou-a contra si com tanta força que temeu parti-la. A bochecha dela tocava na sua e podia sentir o calor das suas mãos através da camisa. Respirou fundo, inalando o perfume dos cabelos dela. Não era o mesmo, mas continuava maravilhoso.

Ela beijou-lhe o pescoço.

Ele cantou-lhe ao ouvido:

Hush, little baby, baby don’t you cry.

One of these mornings you’re gonna rise up singing…


O quadro que inspirou este texto é uma fotografia homónima de Ana Zilhão, autora do blog The good old fashion e a fotógrafa por detrás do instagram @_goodoldfashion.

La La Land

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Fotografia retirada do Imdb

Ano: 2016

Autores: Damien Chazelle

Protagonistas: Emma Stone, Ryan Gosling

Cotação Imdb: 8.5/10

Em Los Angeles, um músico com um sonho muito concreto e uma atriz cheia de ambições, apaixonam-se e apoiam-se mutuamente no caminho da execução dos seus objetivos profissionais.

Uma pessoal muito especial na minha vida, dizia-me sempre: “Não vou pedir que as coisas aconteçam como tu queres agora. Vou pedir que aconteçam como é melhor para ti”. Sempre teve razão, claro, porque aquilo que queremos num momento não é, necessariamente, o que é melhor para nós.

La La Land, cujo título é uma interseção genial entre a alusão à cidade onde se desenrola e a expressão inglesa para mencionar a terra dos sonhos, é um hino à vida, ao amor e à paixão por nós mesmos, pelo outro e, como não podia deixar de ser, pelos sonhos.

É um levar ao expoente o lema pessoano o homem sonha e a obra nasce.

Mais do que devido às cenas de música e dança, é um musical porque gira em torno da arte, com ênfase na música, mais concretamente o jazz. E faz todo o sentido tratar-se de um musical, sem qualquer exagerar nas cantorias, porque é a música que une as personagens: é graças a ela que se encontram uma e outra vez e que toda a sua relação se desenvolve, para o bem e para o mal.

Encolhi-me um bocadinho na cadeira com vergonha alheia durante toda a primeira cena. Pareceu-me excessivo, desnecessário e nada ligado ao resto do filme. Felizmente, foi seguida de muitas outras cenas muito boas, excecionalmente executadas, que ajudaram a perdoá-la.

A parceria Emma Stone-Ryan Gosling provou, mais uma vez, ser de uma dinâmica maravilhosa, capaz de apresentar uma história lindíssima de uma forma encantadora.

Do (quase) princípio até ao final, prende, entusiasma e faz sorrir. Lacrimejar também, um pouco.

Sarices

Faltava cerca de uma hora e meia para a hora marcada. Sentada na beira da cama, observou num estado a roçar o pânico a montanha de peças de roupa que se formara ali, diante dos seus pés, em poucos minutos. Apesar de ter escolhido mentalmente a toilette que iria usar há já vários dias, no momento em que se viu com ela a cobrir-lhe o corpo, gritou horrorizada perante um aspeto tão negativamente diferente daquele que imaginara.

Entretanto, ficara sem hipóteses, ganhara um poço de lágrimas a querer saltar-lhe de cada olho, soltara urros de exasperação e estava tentada a cancelar tudo. Antes disso, no entanto, voltou à escolha inicial, escolheu uma parte de cima ligeiramente diferente e completou o conjunto com o par de sapatos novo, mais alto do que o habitual. A medo, colocou-se diante do espelho… e bateu palmas de satisfação: não estava assim tão mal!

Um jeito ao cabelo e uma mínima dose de maquilhagem conseguiram conferir-lhe a confiança de que estava realmente bonita. Talvez conseguisse impressiona-lo, até.

No muito – demasiado – tempo que restava até ele ir busca-la à porta de casa, reviu mentalmente o momento em que se cruzara com ele pela primeira vez numa festa de aniversário de um quase desconhecido e o desafiara para dançar, surpreendendo-se a si mesma. Sentira choques percorrê-la durante todo o tempo em que os seus corpos se tocaram e passou o resto da noite vidrada nas palavras que lhe saíam da boca, tão cheias de histórias, de viagens e de projetos que, de facto, estavam a ser concretizados!

Ouviu a campainha tocar, controlou – de uma forma muito mal conseguida – os tremores do corpo, reviu mentalmente o que não deveria dizer e desceu as escadas.

Abriu a porta e não teve de forçar, minimamente, o enorme sorriso que a visão dele lhe provocou instantaneamente:

– Uau! – exclamou.

Ele riu-se.

“Oh não! Eu disse isto em voz alta!”, pensou, recriminando-se.

No carro, numa tentativa de não deixar espaços para silêncios embaraçosos, começou a falar atabalhoadamente sobre passar por aquela mesma rua todos os dias no caminho para o trabalho. Podia ir de autocarro, mas habituara-se a usar o carro e já se sabe que custa sempre voltar atrás, até porque sempre pode ouvir a sua própria música, ou dar boleia e ir a conversar, ou fugir ao trânsito… Embora, para dizer a verdade, as colunas do carro fossem fracas. Bem, eram fracas e pirosas, porque tinham sido alteradas pelo antigo proprietário só que, para além das colunas, o carro em si é bastante piroso.

– Aliás, eu acho que os Seat Ibiza são bastante pirosos em geral.

– Achas? – perguntou ele, desviando o olhar da estrada e dirigindo-lhe um sorriso divertido.

Ela olhou em volta, sem conseguir achar a resposta que procurava:

– Estou dentro de um Seat Ibiza, não estou?

Chegados à beira-rio, à porta do restaurante, observou por momentos a água que refletia o brilho suave da lua naquela noite de algum nevoeiro e sentiu-se, ao fim de bastante tempo, tranquila. Feliz, até. Entusiasmada. Saiu do carro e tentou disfarçar o melhor possível a dor que a cabeçada dada no puxador lhe provocou.

– Estás bem?- Perguntou ele.

– Sim, claro – respondeu ela, fingindo com a pior das naturalidades que não sabia ao que ele se referia.

– Quando era pequeno vinha aqui muitas vezes ao fim de semana de manhã andar de bicicleta com o meu pai – contou ele, conduzindo-a a caminhar paralelamente ao rio. – A minha mãe ficava em casa com a minha irmã e era o nosso momento de homens. Depois elas vinham cá ter para almoçarmos sempre ali, naquele café de toldo amarelo.

– Eu ao sábado de manhã tinha aulas de música. Ao domingo dormia para não ter de ir à missa.

A sério?! Fora mesmo aquela a sua resposta à partilha que ele acabara de fazer de um pouco da sua vida?

Dirigiram-se para a porta do restaurante no momento em que o nevoeiro os presenteara com uma chuva que, embora ligeira, fora suficiente para os deixar pegajosos e com os cabelos menos apresentáveis do que originalmente.

Ele tinha feito reserva. Nunca ninguém fizera uma reserva para a levar a jantar! Entregou o casaco ao empregado e seguiu-o até à mesa que lhes fora destinada. Conseguiu dar apenas dois passos antes de a combinação fatal de chão de madeira com sapatos molhados a enviarem de mãos ao chão.

– Estás bem? – perguntou ele, pela segunda vez naquela noite, genuinamente preocupado.

– Sim – respondeu ela, morrendo de vergonha.

– Anda, segura-te a mim para não ires parar ao hospital antes de conseguirmos jantar.

Mais uns pares de passos adiante, ficou pendurada no braço dele, a centímetros do chão e perante o olhar entre o divertido e o preocupado de todos os presentes.

– Então? – perguntou ele, sabendo que rir não era a melhor reação.

Ela parou, com o braço ainda preso no dele, olhou-o nos olhos e esclareceu:

– Se a nossa mesa é aquela ali do canto, isto ainda vai acontecer mais algumas vezes. E podes rir-te à vontade.

Todavia, perante tal declaração, o empregado colocou-se do lado direito dela e amparou-lhe o braço livre durante o resto do percurso.

Sentaram-se e, antes de conseguir olhar para a ementa que lhe fora colocada à frente, ela informou-o:

– Já estava nervosa, mas agora fiquei bastante mais. Posso gaguejar.

A gargalhada dele acalmou-a ligeiramente.

Foi-lhes servido um copo de um delicioso vinho tinto adocicado que fizeram acompanhar de um bife e uma mistura de legumes numa espécie de combinado de nouvelle cuisine com cozinha portuguesa.

Enquanto ele falava, ela mantinha-se ocupada a beber ou a comer, na maioria do tempo, para evitar responder-lhe com algum disparate ou alguma sobre-exposição dos seus pensamentos. Ele deixava-a nervosa o que, por um lado, era terrível, pois sentia-se sem controlo absolutamente diante dele, sedenta de mais conversa, de mais partilha, mas incapaz de lha devolver na mesma forma tranquila com que ele se apresentava diante dela. Por outro… não sabia que era possível sentir-se tão intensamente arrebatada por alguém que, com um só olhar, conseguia tocar partes da sua alma.

Queria que ele a achasse tão interessante como ela o achava a ele, que, no mínimo, no final da noite levasse para casa recordações de momentos intensos que dificilmente esqueceria, de histórias que pudesse contar às outras pessoas sobre aquela rapariga que…

– Ai!

Não percebeu logo o que aconteceu, mas sentiu pedaços de algo duro e desconfortável na boca. Um líquido começou a escorrer-lhe pelo queixo em direção ao decote exposto e foi então que se apercebeu de que mordera o copo de vinho com tanta força que acabara por parti-lo.

– Estás bem? – Perguntou ele novamente, enquanto ela cuspia os cacos por detrás do guardanapo de pano.

– Sou um desastre! – Esclareceu ela, por fim, levantando-se para ir à casa de banho bochechar.

– Espera! – pediu ele. – Por favor não caias, ainda por cima com vidros na boca.

Conseguiu essa proeza e ainda a de não ficar com a roupa manchada.

Voltou a sentar-se diante do prato ainda meio comido. Entrelaçou as mãos uma na outra, mordeu o lábio, torceu a boca e acabou por dizer:

– É verdade o que disse: sou um desastre e acontece-me tudo. Provavelmente não vou chegar a casa antes de me acontecer mais alguma coisa estranha. Isso para quem está comigo pode ser bom, porque o que tiver de acontecer é a mim que acontece, mas também pode ser desconfortável, porque passo a vida a cair e a fazer os outros passar por vergonhas por causa de coisas parvas.

Do outro lado da mesa, ele voltou a sorrir com sinceridade e disse-lhe:

– Juro que nunca me diverti tanto em tão pouco tempo com alguém. Só tenho algum receio de que te magoes…

– Raramente me magoo…

– Ao menos isso!

Ele riu-se e estendeu-lhe a mão por cima da mesa. Ficou confusa durante alguns instantes, mas lá percebeu que ele queria que ela lhe desse a sua, pelo que, o mais graciosamente que conseguiu, foi o que fez… Levando à frente o copo de água, que se entornou sobre a toalha e pingou para o chão.

– Esta foi de propósito! – riu ele.

Ela corou:

– Não…

Evitou a sobremesa porque o estômago se lhe comprimira de vergonha e com a certeza de que nunca mais voltaria a ver aquele homem à sua frente, a menos que fosse por acaso. Saíram para a noite fresca, onde ele lhe rodeou os ombros com um braço forte, provocando-lhe nova onda de arrepios pelas costas acima. Não queria que ele retirasse aquele contacto tão agradável entre os dois corpos, mas o frio falou alto de mais, obrigando-a a retirar da carteira o casaco de malha. E o porta-moedas, e a embalagem da pílula, e um tampão, e uma caixa de chiclets e alguns talões, que se espalharam sem dó nem piedade pelo chão.

– A sério?! – Exclamou ela, exasperada com a sua própria falta de jeito geral para, enfim, tudo.

– Acho-te imensa piada – confessou ele. – Sabes, sem qualquer nota depreciativa, fazes-me lembrar as mulheres daqueles filmes cómicos maus, muito bonitas, muito bem vestidas, que se aproximam em câmara lenta do namorado, os espectadores estão à espera de que elas sejam sexys, mas elas acabam por cair ou por ir contra alguma coisa.

Teve de rir-se:

– Por isso é que eu já nem tento ser sexy, para não defraudar as expectativas de ninguém…

Lion

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Fotografia retirada do Imdb

Ano: 2016

Autores: Saroo Brierly (adaptação do seu livro A long way home) e Luke Davis

Protagonistas: Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman

Cotação Imdb: 8.0/10

(Baseado em factos reais)

Saroo é um menino indiano que, aos cinco anos, se perde do irmão, mais velho. Analfabeto, confuso e assustado, dá por si longe de casa, em Calcutá, sem saber como para lá voltar.

Após escapar a vários perigos, nomeadamente a redes de tráfico de menores, é adotado por uma família Australiana.

Vinte e cinco anos mais tarde, formado e com uma vida privilegiada, embarca numa longa e dolorosa viagem pelo passado, numa tentativa de reencontrar a família biológica.

Em grande parte graças à magnífica representação de Dev Patel, o filme é capaz de transmitir a dicotomia da qual não consegue alhear-se de uma forma muito intensa, retrata a pobreza e fragilidade humana naquela pequena povoação indiana. É quase fácil cair na tentação de acreditar que o azar se revelou ser a sorte de Saroo, perante o contraste entre a vida que tinha (e teria), continuando na sua terra natal, e a que acabou por encontrar do outro lado do mundo.

Mas a angústia é constante ao longo deste filme maravilhoso do princípio ao fim, sendo um sentimento transversal a quase todas as personagens intervenientes.

Lion, testemunho das capacidades representativas de Rooney Mara e de Nicole Kidman, conta uma história de amor familiar que se divide em duas e que conduz o espectador a uma reavaliação quase espontânea da sua vida, pondo as várias realidades em perspetiva.

Esperava que a relação dos pais adotivos com os filhos, que se percebe ser de uma dificuldade imensa, resultado de um amor profundo, fosse um pouco mais explorada. Não sendo esse o foco da história, é um tema lindíssimo, que traz, indubitavelmente, uma visão crua deste tipo de amor.

O tráfico infantil na Índia é, ainda hoje, uma realidade – mais de 80 mil crianças são anualmente vítimas destas redes. A ministra para o desenvolvimento das mulheres e crianças, Maneka Gandhi, fundou em 2015 dois websites, o Track Child e o Khoya Paya, para ajudar as famílias a encontrarem (ou, pelo menos, a tentar) as crianças desaparecidas.

Cronologia

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[Texto originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita]

O azul e vermelho dos estofos já apagados contrastavam com o brilho da luz da manhã a embater na janela, à qual encostava a cabeça de forma a olhar para o exterior estando, ao mesmo tempo, atento ao que acontecia dentro da carruagem. Havia um ritmo que se repetia quase exaustivamente todas as manhãs, como um desígnio que se cumprisse estritamente para evitar o efeito borboleta.

A professora de História sentava o filho adolescente, mantendo-se de pé ao seu lado com um tablet na mão, pelo qual lia as notícias do dia. Saíam três estações depois, cruzando-se com os três funcionários de supermercado e o, provavelmente, economista, que se espalhavam por onde houvesse lugar. Reconhecia-lhes as caras e as vozes, entretinha-se a escutar-lhes as conversas sem prestar muita atenção, imaginando as pessoas que evocavam, bem ou mal.

Era quando o metro se renovava de passageiros que o via, com a risca ao lado perfeitamente delineada, o uniforme de colégio e a pasta maior do que as costas. Sentava-se à sua frente, furando a multidão, e começava a balançar os pés, longe do chão. Recriando quase exatamente a sua versão infantil.

Havia naquele miúdo algo de familiar. Bastante, até, pelo que deu por si a focar o olhar nos seus gestos, semiescondido por trás do jornal.

Tinha as mãozinhas ainda rechonchudas do final da infância, os olhos, por detrás de um par de óculos, atentos ao mundo e aos seus detalhes, sorria, muitas vezes, como se dentro da sua cabeça se passasse um desenho animado.

Saíam na mesma estação, subiam as escadas rolantes um à frente do outro e separavam-se só na saída, indo para caminhos opostos: o miúdo para a escola, o adulto para o trabalho.

Reviam-se no dia seguinte, não mostrando sinais de reconhecimento, mas sentando-se sempre virados um para o outro.

– Andaste à chuva… – comentou, ouvindo o miúdo espirrar três vezes seguidas.

Ele limpou o nariz a um lenço de papel e explicou:

– Não, ontem quando saí da piscina estava muito frio.

– Andas na natação?

– Sim. E ontem tive o último treino antes da competição.

– Eu quando tinha a tua idade também andava na natação. Ainda ganhei algumas provas.

Os olhos do miúdo brilharam:

– A sério? E porque deixaste?

Pensou um bocado, piscou-lhe o olho e respondeu:

– Por causa das miúdas. Não tinha tempo para tudo. Vais ver, quando elas começarem a aparecer.

O miúdo franziu o nariz:

– Eu já tenho uma namorada.

– Só uma?!

Olhou-o com um olhar inquisidor desafiante:

– Sim. Gosto muito dela.

– Podes gostar muito dela e de mais uma. Ou mais duas. Ou de mais três – riu-se.

Alguém precisava de mostrar às crianças de hoje em dia uma mentalidade diferente. Mais aberta, mais liberal.

– Acredita, na tua idade também só tinha uma namorada. E era bom. Mas quando tive duas passou a ser melhor ainda.

– E agora, quantas tens?

– Nenhuma. Tenho várias amigas.

– Eu não gostava que a minha namorada tivesse vários namorados.

– Eu também não – riu-se novamente.

À saída da estação, depois de lhe desejar boas aulas, sentiu-se orgulhoso da influência que acabara de ter na vida de uma criança. Estava certo de que lhe mostrara um caminho mais direto para a felicidade.

– A minha mãe disse que não é bonito ter mais do que uma namorada.

– Se alguma for feia não. Mas não serve de nada ter uma namorada feia. Como se chama a tua mãe?

– Maria Amélia.

– É como a minha! – exclamou, contente por encontrar mais um elo de ligação com o miúdo. – Então tens de dizer à tua mãe Maria Amélia que precisas de ter uma para quando te chateares com a outra. Elas às vezes estão de mau humor ou ocupadas.

– Não, a minha mãe diz que quem tem mais do que uma namorada faz mal às mulheres e depois acaba sempre sozinho.

– Isso é o que a sociedade diz. Se não houvesse essas regras ninguém se chateava.

– Ela diz que tem a ver com o amor. Que se eu amar alguém quero estar só com essa pessoa e tratá-la muito bem e fazê-la feliz.

– Mas não precisas de amar só uma pessoa. Amas a tua mãe?

– Claro! – A indignação do miúdo foi evidente.

– E amas o teu pai?

– Sim! – A dúvida começou a instalar-se.

– E achas que estás a tratar mal a tua mãe por amares o teu pai?

Pensou um bocado, tentando digerir aquela linha de pensamento.

– Uh, não… – respondeu hesitante.

– Então lá está! Amas duas pessoas, tens tempo para as duas, tratas bem as duas e não tem mal nenhum.

Vinha de sobrolho franzido quando se sentou nos estofos gastos:

– Ontem a Madalena zangou-se comigo!

– Quem é a Madalena?

– É a minha namorada.

Foi incapaz de esconder a admiração:

– A minha namorada da primária também se chamava Madalena!

– Pensei que tinhas tido mais do que uma.

Riu-se, recordando a inocência:

– Na primária só tive uma. Depois no liceu é que descobri o que é bom. Mas porque se zangou contigo?

Cruzou os braços bruscamente:

– Porque eu lhe disse que queria ter outra namorada.

Soltou uma gargalhada:

– Não lhe podes dizer isso! Primeiro arranjas outra e só passado muito tempo, quando tiveres a certeza que nenhuma das duas se vai embora, é que podes deixar que saibam uma da outra. Mas não podes contar diretamente, dizes só um dia “hoje não posso ir ter contigo, porque já tenho coisas combinadas com a não sei quantas”. E ela não questiona.

– E se não gostar?

– Não vai gostar. Mas não vai fazer nada, porque já está demasiado presa a ti. Só tens de saber fazer as coisas bem.

– Como é isso?

– Tens de a fazer sentir-se especial quando está contigo mas tens de a fazer acreditar que sem ti não vale nada.

O miúdo franziu a testa, visivelmente em desacordo com aquelas palavras.

– A Madalena é bonita. E todos os rapazes gostam dela. E é a melhor aluna da turma. E faz ballet.

– Isso não interessa para nada. Essas coisas guardas para lhe dizeres só tu. Tens é de encontrar os defeitos dela, por mais pequenos que sejam, e mostrar-lhe quão errados são. Mas não de uma forma óbvia. É um longo processo, que implica que lhe mostres a todo o instante que não concordas com ela, que não achas bem as atitudes que ela tem, fazê-la perceber que aquilo em que acredita é inútil. E, claro, ela tem de chegar à conclusão de que as tuas ideias e o que tu dizes é que está certo. Só nessa altura é que pode saber da existência da outra namorada. Ou amiga.

– Não sei se quero fazer isso…

– Não se trata de querer, mas de necessidade. Se fores como eu, essa é a tua mais valia. Não sou muito alto, e as mulheres gostam de homens altos. Gosto mais de máquinas do que de pessoas. Nunca me saí muito bem com as miúdas até ao secundário, que era quando elas estavam mais frágeis, por causa das borbulhas e das lutas para emagrecer. Aí aprendi a conquistá-las.

Luísa acabara de o informar que teria de tomar conta dos filhos nessa tarde, pelo que os planos de jantar teriam de ser adiados. Não lhe apetecia cozinhar, pelo que convidou Lara para o acompanhar a um restaurante qualquer.

– Não gosto de fazer planos – dizia sempre, à partida, para que lhe fosse mais fácil manter o malabarismo sem grandes confusões.

Lara tinha já um jantar combinado… Teria de descobrir com quem. Estava habituado à sua total disponibilidade, o que o deixava confortável na certeza de que não teria o seu status-quo a ser reclamado por um alguém qualquer.

– Senhor, como é que eu sei com qual quero casar e ter filhos?

Desviou o olhar da janela e concentrou-se no miúdo.

– Senhor, não. Antero.

O miúdo soltou uma exclamação de surpresa:

– Eu também me chamo Antero! Era o nome do meu avô.

Mirou-o atónito, incapaz de acreditar no que ouvia. Estudou-lhe os olhos castanhos, o cabelo alourado, o nariz adunco, a cicatriz no canto do olho esquerdo, as unhas roídas. Eram demasiadas coincidências, demasiadas semelhanças, como se diante de si tivesse um espelho que o reportava para há trinta anos atrás.

Gaguejou, respirou fundo três vezes e explicou-lhe:

– Vais saber. O truque é não pensar e saber quando ceder àquilo que elas querem e quando seguir aquilo que tu queres. As mais inseguras vão rejeitar tudo para te fazerem as vontades. Há uma que é mais segura do que as outras. Com essa vais ter de dar o braço a torcer algumas vezes.

Levantou-se do banco, vestiu o casaco e disse-lhe, antes de sair numa estação qualquer, em busca de ar:

– Não te preocupes. Vais-te safar bem. Só tens de acreditar em ti. Mesmo quando não o conseguires.

Boa sorte e até um dia

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Fotografia: @saratrigocalheiros
Ao fim de todos aqueles anos, viu as paredes despidas, tal como no dia em que as vira pela primeira vez, um pouco mais sujas, cativeiros de memórias e de histórias irrecuperáveis pelo andar dos dias. O quadro em tons de vermelho e preto que correra meio mundo para adquirir estava já embalado, a caminho do seu novo destino: um armazém nos arredores da cidade, suspenso no tempo até que lhe fosse indicado um novo rumo.
Rodou sobre si mesmo, inspirando o odor característico daquele hall onde tantas pessoas se haviam cruzado, onde o verniz já baço dos tacos revelava incomensuráveis passagens de sapatos. Tinha lágrimas de nostalgia, apreensão e excitação prontas para saltar, assim que lhes desse ordem. Em vez disso, apertou o cachecol aconchegado ao pescoço, fechou o blusão castanho de pele, soltou um suspiro e arrastou as duas malas cheias pela porta em direção ao carro.
Lá fora chovia sobre um dia cinzento, pelo que o movimento na rua era escasso. Engoliu o nó que se lhe formava na garganta e colocou as mãos no volante daquele carro dos anos 60, herdado do avô, que o guiava para qualquer lado desde os seus vinte anos. Aquele dia chegara mesmo.
Tinha começado a pensar nele um ano antes – quando ainda faltava tanto que a ideia era um pouco abstrata demais para poder ser realmente concretizada. Falara dela a dois amigos numa esplanada por cima do rio, acompanhado de um chá fresco num final de verão. Fora aí que começara a tornar-se – mais ou menos – real.
Pensara na decisão todos os dias, mentalizando-se de que não havia volta a dar. Não porque, de facto, não houvesse, mas porque não queria que houvesse. Precisava daquela mudança para que o ar voltasse a passar puro pelos pulmões, para que as noites voltassem a ser de sono, para que os fantasmas não continuassem a atormentá-lo a cada momento, impiedosos e gozões.
E aqui estava ele, naquele domingo triste, tendo apenas por companhia a sua vida toda enfiada no porta-bagagens.
Não o sabia, mas estava pronto, apesar do receio do desconhecido.
Ligou o carro, meteu a primeira e arrancou, muito devagar, ao contrário do que era habitual.
Os pneus deslizaram lentamente pelos paralelos escorregadios, deixando para trás o conforto que sempre conhecera, as pessoas que o tinham acompanhado desde o início e o projeto que iniciara no começo da sua vida adulta, quando o seu cabelo era, ainda, todo da mesma cor, para abraçar um novo projeto não totalmente delineado.
Meteu a segunda e acelerou, dirigindo-se para auto-estrada.
De janelas abertas até meio, a 160 km/h, com o rádio ligado numa qualquer música abafada pelo som do vento, soltou uma gargalhada vinda não se sabe de onde, mas que não conseguiu controlar.

Dicotomia

– Boa noite – despediu-se ele, deixando Clara do outro lado sozinha, mergulhada no silêncio das memórias de tudo aquilo que quase existira, calando um desejo de um convite para uma tarde passada juntos.
Tinha tanto para lhe contar, tantos conselhos para lhe pedir, tantas lágrimas para chorar no ombro dele, tantas saudades para matar, mas tivera de deixá-lo dormir, porque a vida dele continuava, tranquila e serena como era suposto, enquanto a sua ficava, volta e meia, pendurada na ideia dele.
Pousado no braço do sofá estava o livro que ele lhe dera e que começara a ler três ou quatro vezes, já, sem dar continuidade à leitura. Na televisão, o filme que estava a ver quando o ataque de saudades dele a acossou permanecia em pausa, à espera de ser posto novamente a rolar.
Mas apenas a breve conversa que tivera com ele se repetia na sua cabeça. De vez em quando dava-lhe silenciosamente seguimento, contando-lhe o que calara, perguntando-lhe o que não pudera perguntar. Não obtinha respostas nem recebia o esperado calor da presença dele, mesmo que apenas do outro lado de uma linha de comunicação.
Fechou os olhos lacrimejantes, recostou-se para trás e imaginou-o a dormir. Recordou-o, na verdade. Com detalhe.
A vida dele seguia o rumo que ele quisera traçar para ela, com o dinamismo que lhe conhecera, talvez até um pouco mais feliz, já que eliminara dela o elemento desestabilizante: aquela relação que nascera de repente, numa fase em que ele olhava para Clara com admiração, desejo e (seria mesmo?) amor, que crescera lentamente num remoinho de emoções e que culminara numa discussão seguida de outra, de outra e de mais outra.
A fase inicial de uma relação ignora as adversidades: guarda-as numa dimensão aparte, catalogando-as momentaneamente como irrelevantes, para que nada seja superior àquele sentimento em crescimento e de forma a que duas pessoas, mesmo que pertencendo a mundos opostos, se apaixonem.
Mas eis que o vermelho e o rosa da paixão são atenuados e abrem espaço para que a realidade tome lugar em todo o seu esplendor. Surgem, então, o amor e os atritos, lado a lado, numa disputa constante por atenção. Nalguns casos, vence o primeiro.
Não fora o seu…
Invejava-o. Adormecido, no aconchego da sua casa, finalmente devolvido à vida que escolhera, livre dos atritos. Livre de Clara.
Mal tapada por uma manta branca, sentindo o frio desconfortável da noite de inverno, soltou um riso sarcástico perante aquela situação: passara o dia inteiro a improvisar formas de acalmar a necessidade de procurar o homem responsável por aquela tristeza para que lhe desse a consolação de que precisava. Todavia, adiara até tarde demais, quando eram já horas indecentes para conversar com alguém, mas não até tarde demais para não obter qualquer resposta. E a parca resposta que obtivera desconcertara-a mais ainda, intensificara-lhe as saudades e deixara-a ali prostrada, tarde na noite, entregue ao seu próprio silêncio. E ao da única voz que a reconfortaria.
Dorida, transladou-se do sofá para a cama, onde o sono demorou a chegar, importunado pela necessidade urgente de pegar no telefone e lhe falar, recriminada por uma consciência berrante que a recomendava a entregar-se ao silêncio.