Un coup de foudre

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Montmartre à noite (Fotografia: @saragtrigo)

Estava farta, não conseguia aguentar muito mais o caos das manhãs à superfície ou debaixo da terra, em que chegava a ter de deixar passar dois metros para poder, finalmente, entrar e, aí, ir o caminho todo esmagada entre a barriga protuberante de uma desconhecida e a axila de aroma desagradável de um estranho. Mais do que o calor intenso a contrastar com o frio gélido que se sentia lá fora, perturbava-a o silêncio doloroso e imparcial da ausência de contacto entre todas aquelas pessoas indiferentes umas às outras.

Por entre encontrões e pedidos de licença parcimoniosamente ignorados, conseguia sair da carruagem e correr – porque início de dia nenhum era levado com calma, por mais cedo que saísse de casa – por entre as buzinadelas, os elétricos, as pessoas rabugentas e as poças de água. Chegava ao trabalho já tão cansada que lhe custava demasiado concentrar-se e reunir as forças necessárias para começar a ser produtiva.

Adorava Paris e fora por isso que, quatro anos antes, se aventurara a ir para lá viver, ainda que isso implicasse deixar sozinha a sua cidade natal, a sua família e os amigos, trocando um trabalho estável pelo desconhecido absoluto que enfrentaria sozinha.

Mas podia. Mais do que isso, queria-o.

Encontrara, à sua espera, uma metrópole que fazia jus ao epíteto, cheia de luminosidade, mesmo nos dias cinzentos e chuvosos. Deambulava, deliciada, pela cidade e acabava sempre a conduzir-se para algum lugar novo e encantador, porque em Paris, mesmo as ruas e os edifícios feios são bonitos. É esse equilíbrio entre a luz e a escuridão, a beleza e a fealdade que a cobre de perfeição em cada traço, em cada canto, em cada imagem.

Mas o encanto fora-se esbatendo, o chauvinismo, que a principio a fascinava, passara a ser recebido com frustração por uma rapariga que, tanto tempo volvido, não tinha uma única verdadeira amizade digna de registo na capital francesa. Habitadas por mendigos esquecidos e ignorados pela sociedade em festa permanente, as ruas cada vez mais inseguras oprimiam e comprimiam os locais e os turistas uns contra os outros numa aparente convivialidade hostil.

Apenas a beleza da cidade permanecia imutável. Na verdade, acentuava-se mais ainda por contraste com toda a negatividade de que se revestia agora.

Dedicaria, portanto, o fim de semana a redigir uma carta de rescisão do contrato. Voltar para Portugal parecia-lhe a melhor decisão naquele momento. Seria outra aventura, ainda que no sentido contrário. A lufada de ar fresco e húmido que o Porto tinha à sua espera era precisamente aquilo de que precisava para repurificar os pulmões, a mente e a alma.

Uma vez tomada a decisão de abandonar a cidade, desperdiçar uma noite a adiar a preparação da partida e a ouvir uma banda de que não ouvira falar nunca, na companhia de um vizinho que lhe oferecera o bilhete certamente porque apenas não encontrara companhia melhor, parecia a Mariana uma ideia insuportável.

Talvez não fosse assim tão desagrádavel e talvez, até, ele quisesse passar umas horas com ela para prolongar as conversas pontuais mantidas ao longo de três lances de escadas.

Arranjou-se. Não demasiado, não fosse passar a ideia errada, apenas o mínimo suficiente para não o ofender. Hesitou entre saltos altos ou sapatilhas, mas acabou por levar a segunda opção: com sorte a musica dar-lhe-ia alguma vontade de dançar. Por outro lado, sempre lhe facilitava a corrida se tivesse de fugir dali para fora.

Sorriu maliciosamente com o pensamento perverso. O rapaz até era bem parecido como, de resto, o são a maioria dos franceses, e bastante simpático e tão conversador quanto Mariana lhe permitia nos seus encontros fugazes.

De facto, não podia queixar-se. Na verdade, estava a ser uma ótima forma de despedir-se da sua vida em Paris: um cocktail numa esplanada aquecida pelas bocas de fogo a gás com o francês como música de fundo e as luzes a desfilarem diante de si, revelando a atmosfera festiva de sexta-feira.

Enquanto abanava ligeiramente o corpo ao som da música que lhe chegava do palco, deu-se conta de que experimentava o fenómeno engraçado da efabulação da coisa perdida: agora que se preparava para a separação, toda a animosidade sentida para com Paris se esbatia sob o efeito antecipado da ausência e das recordações hiperbolizadas por obra da memória.

Gelou de dentro para fora ao som dos primeiros tiros. Quase pareciam efeitos pirotécnicos vindos do palco, mas o medo inédito que sentiu assegurou-lhe que não era verdade. Os gritos de pânico à sua volta confirmaram-no e impulsionaram-na a fugir. Não sabia por onde, pelo que se guiou pelo instinto e correu, com o coração a doer-lhe na garganta.

– Mademoiselle, par ici!

Virou-se, desconfiada, para a voz que a chamava ao cimo das escadas de acesso à saída de emergência.

Nunca mais esqueceria aqueles enormes olhos verdes com as pupilas dilatadas sob longas pestanas. O homem, alto e bem vestido, estendia-lhe a mão que acabou por agarrar, seguindo-o. Na rua, ao contrário do que esperaram, não estavam ainda em segurança. Continuaram a correr na direção oposta à dos tiros incessantes e ensurdecedores. O frio cortante feria-lhes o nariz e a garganta, dificultando a respiração, mas correram, catapultados pelos gritos atrás de si, apesar dos corpos trementes de medo. Um táxi parou ao seu lado, arrancando a Mariana um urro de pânico, mas assim que compreendeu que o motorista estava do seu lado, entraram. Ainda de mãos dadas com um estranho que a salvara da morte certa, desabou em lágrimas. Gritava e soluçava, lutando contra a respiração que tinha dificuldade em recuperar, sem saber aonde se dirigiam. Ouviu os homens falarem entre si mas nada conseguia perceber. Ouvia tinidos, apenas. E gritos dos que tinham ficado para trás num banho de sangue dentro e fora do Bataclan.

Estava sentada no sofá dele, cada um tapado com uma manta polar, ainda que o aquecimento se tivesse encarregado de tornar o ambiente suportável. Mariana tremia, ainda, incrédula com o que acabava de testemunhar e de viver. Ao que acabava de sobreviver e que era relatado diante dos seus olhos em qualquer canal televisivo.

Guillaume, o homem de olhos verdes, ofereceu-lhe um chá, que recusou, e abraçou-a. O que se fazia numa noite como aquela? Eram ambos naturais de outra cidade, cada uma delas fora dos radares terroristas naquele momento. Estavam sozinhos no pânico. Tinham-se um ao outro.

Mariana agradeceu-lhe uma vez mais por tê-la salvado.

– O que te fez arriscar e levar-me contigo? Podia ter sido o suficiente para teres sido morto também.

– Não pude fazer muito mais – lamentou-se Guillaume. – Mas quando te ouvi passar por mim sabia que ias na direção errada. Não podia ser responsável pela tua morte.

– Mas não precisavas de me ter trazido para tua casa…

– Já estávamos juntos nisto. Não podia deixar-te a meio do caminho, sem saber se ficavas bem. A partir do momento em que te estendi a mão e a agarraste fiquei responsável por ti.

– E eu por ti?

– De certa forma, sim.

– E porquê a mim e não a outra pessoa qualquer? Porque é que fui eu a passar por ti? Porquê por ti? Naquele momento…?

Guillaume suspirou, olhando envergonhado para o colo:

– Não sei. Também me questiono porque é que escolhi aquele lugar, logo ao lado da saída de emergência. Calhou… Tal como calhou termos chegado à rua e corrido na direção certa.

Mariana não punha a sua vida nas mãos de ninguém nem de nenhuma entidade invisível e omnipotente, fosse ela um deus ou um fado, mas algo no desenrolar dos acontecimentos daquela noite a deixava perplexa. Tudo saíra do seu controlo. Fora colocada num cenário de terror apenas para sair ilesa por acaso e pela mão de outrem. Porquê?

Percebeu que Guillaume partilhava das suas questões, embora ele tivesse tido um papel decisivo, já que estivera no controlo da salvação de uma vida. E logo a sua.

Nessa noite não dormiram; como podiam?

Com a televisão muda, mantiveram-se abraçados até verem o sol nascer por entre as cortinas entreabertas da sala. Quiseram descobrir tudo da vida um do outro, certificar-se de que tinha valido a pena e de que algo nesse treze de novembro não fora apenas um sobressalto do acaso.

– Posso acompanhar-te a casa? – pediu Guillaume, bocejando.

Mariana abanou lentamente a cabeça:

– Não quero ir para lá sozinha.

Mais do que tudo, não queria descobrir se o seu vizinho tinha sido morto.

Guillaume estendeu-lhe uma toalha de turco. Enquanto ela tomava duche, preparou-lhe o chá que tinha oferecido horas antes e depois de, também ele, enxaguar um pouco o medo, adormeceram na sua cama, costas com costas. E as mãos dadas.

Algures durante a noite de sábado para domingo, um pesadelo de Mariana acordou-os aos dois. Partilharam uma torrada, seguiram os últimos desenvolvimentos nos noticiários e adormeceram novamente no sofá.

– Achas que foi para isto que viemos ao mundo? – deitada no colo dele, Mariana afagava-lhe a barba pouco crescida na covinha que tinha no queixo.

– Para quê?

– Para nos encontrarmos, cada um longe de sua casa, sozinhos numa cidade que escolhemos. No dia em que decidi ir-me embora, no meio deste caos…

Guillaume pensou.

– Acreditas no destino? – perguntou, por fim.

– Não – respondeu prontamente Mariana.

– Aí tens. Cabe-te a ti decidir que atitude tomar perante aquilo que a vida põe no teu caminho. Não podes pôr as tuas escolhas na mão do mundo, porque só tu sabes o que é melhor para ti.

Olhavam-se profundamente nos olhos um do outro e Mariana teve a certeza de que, apesar de sempre ter renegado tal ideia, tinha acabado de sentir aquilo que era certeiramente apelidado de amor à primeira vista. E era tão injusto tê-lo conhecido na noite que testemunhara os últimos momentos de vida de tanta gente que Mariana se levantou de súbito.

Guillaume imitou-a, atónito:

– O que foi?

– Vou embora – declarou, em lágrimas.

Abraçou-o com uma sensação crescente de pânico a sufocá-la. Sabia que era um erro, mas paradoxalmente, era a coisa certa a fazer.

– Eu levo-te a casa – ofereceu ele, novamente, apanhado de surpresa.

Mariana foi peremptória na recusa, parou um táxi e refugiou-se em casa.

Cabe-te a ti decidir que atitude tomar perante aquilo que a vida pãe no teu caminho. Era uma frase sem grande sapiência, mas que não lhe saía da cabeça de cada vez que voltava à pergunta porquê eu? Sofria pelos que não tinham tido a mesma sorte quando sentia o sol queimar-lhe as bochechas, quando apreciava um copo de vinho, quando recebia uma visita dos pais em casa, quando respirava, quando continuava a ser. Se bem que deixara de ser grande coisa para ser um lamento quase constante.

A culpa pela morte do vizinho consumia-a, tal como a da morte de tantas outras caras que recordava e que a atormentavam durante a noite, todas juntas dentro da sala de espetáculos, todas unidas pela mesma música.

Mas então porque teria escapado se pouco mais fazia do que lamentar, temer e angustiar-se com aquilo que estava fora do seu alcance?

Cabe-te a ti decidir que atitude tomar perante aquilo que a vida põe no teu caminho.

Com a chegada vagarosa da primavera reapaixonou-se pela cidade e por tudo aquilo que a tinha feito tornar-se parisiense, se não por lei, por coração. Devia-o a Guillaume, ao taxista, ao vizinho e a todas as outras pessoas por quem assumia responsabilidade. Devia-o a si. E devia-o a Paris.
Ver e sentir a sua cidade ser atacada feriu-a e a sua debilidade tornou Mariana mais forte. Não podiam sucumbir, a luz não podia apagar-se e é disso mesmo que Paris e os parisienses são feitos: de luz. Amava Paris mais agora do que antes, pela beleza daquela dor. Pela sua fragilidade rapidamente mascarada por uma força incomparável.

Tinha-se passado quase um ano. Era novamente sexta feira e nevava ligeiramente. O frio era intenso e o caos das horas de ponta contrastava com o cenário tranquilo de um céu de um branco tão puro e luminoso que Mariana ficou parada no passeio a admirar aquela perfeição apenas vivida em Paris, deixando passar o primeiro tram.

O mundo é um lugar realmente estranho, pensou quando ouviu a sineta do novo tram que se aproximava. Validou o passe e sentou-se de costas para o sentido da marcha, incapaz de tirar os olhos da janela por onde os flocos de neve caiam, desfazendo-se imediatamente no chão.

Sentiu-se observada. Incomodada com aquela perturbação que a arrancava do torpor apaixonado no alívio do final de uma semana de trabalho, voltou-se para ver quem a fixava.

Aqueles olhos verdes que reconheceria mesmo no escuro.

– Guillaume?

– Mariana! Pensei que tinhas ido embora…

– Como podia? Apaixonei-me… – explicou.

– Por mim? – Guillaume sorria-lhe, num misto de brincadeira e de seriedade.

Mariana sorriu-lhe de volta:

– E por Paris.

E pela vida.

Contemplaram-se durante todo o percurso até ao fim da linha.

– É esta a tua estação? – perguntou Guillaume.

– Devia ter saído há cinco ou seis estações – confessou ela.

Ele estendeu-lhe a mão:

– Caminhamos?

– Caminhamos.

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