Quando o mundo para

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Fotografia @saragtrigo
Havia, já, folhas caídas, queimadas pelo sol e levantadas erroneamente pelo vento, atiradas de cá para lá, pisadas pelos sapatos despreocupados dos adultos e pelos saltos propositados e divertidos das crianças. Não havia dúvida de que mais um verão chegara ao fim. Mais um ciclo começara e acabara e, uma vez mais, nada evoluíra.
Era um homem novo – um miúdo, como muitos lhe chamavam carinhosamente, numa crítica mal disfarçada para o chamarem para a vida – com um enorme potencial para ser muito, mas que, na verdade, era muito pouco. Sabia que não se dava a demasiados esforços para alcançar aquilo que sabia que queria, mas ia fazendo alguma coisa e, ainda assim, não chegava a lado nenhum.
Continuava a saltar de trabalho precário em trabalho precário, a apaixonar-se perdidamente por sucessivas mulheres erradas e a acumular dívidas que não sabia se alguma vez iria conseguir pagar.
Naquela manhã sentira um sufoco que, infelizmente, já se ia tornando familiar, ao constatar, novamente, que tudo à sua volta era um caos errante, deambulando de acordo com os seus passos, inseparável de si. Incontrolável.
Todos tinham sorte, todos alcançavam alguma coisa, todos tinham algo a que se agarrar para recomeçar a cada dia… Porque não podia ser mais um de todos?
Necessitado de uma golfada de ar puro, desceu até à praia que, naquele dia de semana, se encontrava quase deserta. O sol brilhava com mais intensidade do que previra, para sua agradável surpresa, pelo que tirou a camisola que atirou para cima do ombro, descalçou os sapatos e caminhou pela areia seca.
Escalou o monte de rochas que se acumulava à sua frente e sentou-se numa enorme pedra negra, abrigado dos olhares alheios, com a serenidade do mar aos seus pés.
Cheirava a maresia e a humidade salgada abraçava-o. O vento quente fazia chegar-lhe leves esboços de sons que não conseguia reconhecer. Ali em cima, abrigado do mundo e erguido acima dele numa tranquilidade inigualável, convenceu-se de que era dono de si e daquilo que o rodeava: podia ser quem quisesse, o que quisesse, quando o quisesse ser.
Mesmo que, no final da hora de almoço, tivesse de voltar à realidade. Todos os dias.
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