Bom dia

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Fotografia @saragtrigo
“Bom dia! Espero que tenhas dormido bem. Um beijo muito grande.”
Sorriu, ainda acabrunhada pelo sono de que acabara de despertar, com o telemóvel meio caído entre os dedos e a almofada. Havia algo de especial numa mensagem de bons dias… Alguém algures no mundo, entre tanta gente, tantos afazeres, tanta corrida contra o relógio, se lembrara de si logo de manhã e tirara dois minutos para a fazer saber disso.
E queria que tivesse um bom dia.
Não reconhecia o número, era verdade. Tinha o péssimo hábito de não registar os números que os amigos lhe indicavam, costumando tentar decorar os cinco primeiros dígitos apenas, para os reconhecer quando lhe ligavam. De resto, era uma confusão.
Enquanto a água quente lhe escorria pelo corpo frio, reuniu mentalmente as várias hipóteses. Em boa verdade, enumerou as pessoas que gostaria que lhe tivessem mandado uma mensagem de bons dias: a amiga com quem não falava há bastante tempo e de quem sentia umas saudades enormes; o irmão que emigrara, reduzindo, assim, o contacto diário que habitualmente mantinham; o amigo que, numa determinada altura da vida, a habituara às suas mensagens matinais bem dispostas, que acabara por largar com o tempo. No entanto, de qualquer um deles, conhecia o número de cor, muito para além dos cinco primeiros dígitos.
Sorriu intensamente ao passar com a toalha pelo cabelo molhado: havia, claro, o homem que trabalhava na empresa ao lado da sua, com quem metera conversa atabalhoadamente e que a intrigava todos os dias um bocadinho mais. Todos os dias passavam sete minutos, nem mais nem menos, de manhã, e nove minutos, nem mais nem menos, de tarde, juntos. Ele para tomar café, ela para fazer o enorme sacrifício de beber uma chávena de café até meio, antes de despejar o conteúdo sobejante no lavatório.
Aqueles dezasseis minutos diários, que se prolongavam há já quatro ou cinco meses, eram a razão porque começava cada dia com um entusiasmo maior em relação à véspera, motivada pelo enorme prazer que é conhecer e dar-se a conhecer a alguém novo.
E ele, aquele homem de cabelos negros e voz forte, pensara nela de manhã.
Respondeu-lhe, evitando a quantidade exagerada de smiles sorridentes que seria necessária para lhe transmitir a sua felicidade:
 “Bom dia! Dormi bem, mas acordei melhor ainda. Já nos vemos!”
Escovou os dentes, passando vigorosamente a escova pela língua – o sabor da pasta sempre ajudava a atenuar o amargo do café -, aplicou um pouco de batom e de perfume e saiu de casa, saltitando ao som de uma canção que se ouvia apenas dentro da sua cabeça.
Bom dia… Realmente, tudo corre melhor quando alguém deseja que o nosso dia seja bom.
O telefone voltou a tocar, avisando a chegada de uma mensagem. Sorrindo, abriu-a:
“Peço desculpa, foi engano.”
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