Sapatos vermelhos

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Fotografia @saratrigocalheiros

Vestida, quase pronta para sair de casa, os pés apenas protegidos pelo fino tecido dos collants pretos estavam em contacto quase direto com o frio do soalho. A medo, como se fizesse algo proibido, abriu silenciosamente a porta que dava para uma pequena arrecadação revestida de prateleiras. Sabia exatamente onde estava aquilo que queria: empoleirou-se na maçaneta de uma das gavetas de baixo e esticou-se, de forma a alcançar a caixa branca de letras pretas. Há quanto tempo a teria enfiado ali, protegida de todos os olhares, protegida do passar do tempo?

Retirou-a cuidadosamente, receosa de a abrir à toa. De pernas cruzadas no chão, levantou, numa demorada cerimónia de regresso ao passado, a tampa, revelando um par de sapatos vermelhos. Pegou num deles, sentindo o cheiro do verniz e de sapatos novos, usados apenas uma vez.

Calçara-os de manhãzinha, ainda com as calças de ganga e a t-shirt branca vestidas e, não obstante, dançara com eles a noite toda, ignorando as dores que os 12 centímetros de salto lhe provocavam, subindo dos pés para os joelhos. Haviam sido a última coisa que retirara, já com o vestido pendurado num cabide forrado de cetim, o cabelo liberto dos ganchos e a maquilhagem limpa do rosto. Ficara assim, nua, só com a aliança no dedo e os sapatos vermelhos calçados, em frente à janela para a madrugada ainda escura, a prolongar a felicidade daquele dia único, como que a memorizá-lo para sempre.

Tinham-se passado quatro anos desde esse dia. A aliança que, entretanto, saíra do dedo, estava agora dentro de uma caixa de madeira à espera de um novo destino, incapaz de se deixar cair no esquecimento. Os sapatos saíam, finalmente, de dentro da caixa de cartão branco, no fundo da qual jazia uma fotografia sua de costas, sem roupa, com os sapatos calçados e a mão esquerda caída ao longo do corpo, iluminada pelo brilho da aliança dourada.

Fora ele que registara aquele momento sem que ela disso se apercebesse. Abraçara-a, então, por trás, sentara-a na beira da cama e descalçara-lhe os sapatos que guardara dentro daquela mesma caixa.

E ali tinham ficado, à espera do momento adequado, de um outro dia que fosse igualmente digno deles.

Lembrava-se, ainda, do perfume dele, do toque do cabelo dele, do timbre da voz dele. Ou, talvez, não se lembrasse assim tão bem quanto acreditava e o tempo e o cérebro, numa colaboração espontânea, se tivessem encarregado de recriar essas memórias, polindo-as ao sabor da sua vontade.

Sem pensar demasiado naquilo que estava prestes a fazer, calçou os sapatos e saiu de casa, mostrando-os novamente ao mundo, desta vez não cobertos por um vestido comprido. Pelo contrário, estavam totalmente expostos, longe do tecido da saia acima do joelho.

Era um dia banal, como qualquer outro que o tivesse precedido ou que se lhe seguisse. De cada vez que esse pensamento lhe ocorria, olhava para baixo e o verniz sorria-lhe, acompanhando-a a cada passo e contagiando-a com a alegria colorida do vermelho.

No final do dia, alheia ao cansaço que a fora consumindo, ligou a aparelhagem e, no chão preto da cozinha, dançou sozinha com os sapatos vermelhos e a saia cinzenta a rodopiar, como quando era criança. E feliz.

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