Daqui até à lua

sunrise
Fotografia: saragtrigo

Abri os olhos no escuro do quarto protegido da madrugada fria e pisquei-os algumas vezes até o sono deixar de me magoar. A minha mão ainda pousada na tua sentia a suavidade da tua pele em contacto direto com a minha barriga. Não sabia se tinhas dormido a noite toda abraçado a mim ou se te tinhas virado no último instante, mas soube-me bem acordar assim, segura pelo calor de um braço forte.

Eras tu e era eu, dois corpos díspares, duas almas independentes, duas pessoas que não pertenciam uma à outra. Naquela manhã, unidas por algo desinquietante, uma sensação, mais do que uma emoção, que as colava uma à outra até as horas as separarem novamente.

Afaguei as costas da tua mão e afastei-a, para deslizar pelos lençóis sem te acordar.

De pé ao lado da cama observei-te. Os olhos fechados, a respiração leve, o corpo semidesaparecido por debaixo da brancura dos edredons. Sorri.

Desfiz o sorriso e pensei O que sinto por ti?

Amor… Já foi amor, em tempos. Ou seria apenas a ilusão de um amor criado à pressa e sob pressão, num tempo de urgência, de pertença inalcançável, de carência absoluta de mim e do mundo?

Carinho… o carinho do teu toque em mim, dos teus olhos sobre os meus, das palavras cuja forma moldava de maneira a preencheram o espaço que o meu coração quis criar para ti.

Admiração. Uma admiração pateta de uma criança atirada para a idade adulta de olhos fechados, sem ter sido devidamente preparada, sem os anticorpos necessários para discernir a verdade da mentira, a realidade do desejo.

Ausência. Não é algo que se sinta por alguém, mas foi o que mais senti por ti. A ausência de ti em mim, de mim em mim e de mim em ti. O espaço vazio que nunca deixou de existir e que, com o passar do tempo, só se foi alastrando como um chão coberto de ervas daninhas, rasgou-me o corpo, acabando por estilhaça-lo.

Sorri novamente, viraste-te para o outro lado.

Vesti-me às apalpadelas no escuro, não querendo acordar-te. Para onde foram os tempos em que ver-te dormir me angustiava porque era mais tempo perdido de ti?

Encontrei a minha camisola debaixo das tuas calças de ganga e enfiei-a pela cabeça a baixo. De sapatos nas mãos para o barulho dos saltos não te quebrar o sono, observei-te uma vez mais.

Era a nossa despedida. Não porque eu quisesse, não porque tivesse de ser, mas porque era a única coisa que fazia sentido.

Eras tu. E era eu. Duas realidades paralelas que, por um erro de cálculo, se tinham cruzado num determinado momento, confundindo dois universos incompatíveis, atirando-os para um turbilhão alucinante de emoções.

Ali estavas tu, desconhecedor da minha partida, entregue ao mundo por ti escolhido, onde eras rei e súbdito. E ali estava eu, a tiara guardada na carteira para ser colocada assim que fechasse a porta do quarto.

Rabisquei num papel a palavra obrigada. Certamente não perceberás a que me referia e nem eu mesma tenho a certeza se te agradecia a ti ou a mim.

Saí, fechei a porta e respirei de alívio. Lá fora a lua ainda brilhava, num sorriso tonto de criança satisfeita com um pedaço de papel rasgado. Contemplei-a durante alguns momentos, permitindo que o frio quase invernoso me despertasse um pouco mais à falta de cafeína.

– Aonde queres que te leve? – perguntavas tu.

– À lua – respondia eu, invariavelmente, porque seria uma longa viagem que nos fecharia um com o outro, longe do mundo e das pessoas. Tu comigo e eu contigo, apenas e só, durante o tempo que demorasse a ir e a vir.

Vi-a desaparecer lentamente.

E foi o sol que, refletido na água do rio e nas janelas que se destapavam, me acompanhou no caminho de volta a casa.

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