Copa de luz

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Fotografia @saratrigocalheiros

– O que queres ser quando fores grande?

– Quero ser professora de bebés. E pentear os cabelos das meninas. E pintar os lábios às senhoras. E tu?

– Eu já sou grande!

Entre gargalhadas, a menina retorquiu:

– Claro que não és! És muito pequenina – apontou-a, sublinhando a evidência. – Então, o que queres ser quando fores grande?

– Feliz.

– Oh, madrinha… isso é resposta de velhinhos.

– Mas é isso que eu quero ser, fofinha.

O dia 14 de setembro de 1985 foi, ao mesmo tempo, o dia mais infeliz e o dia mais feliz da minha vida. Na realidade, o intervalo de tempo entre o meio-dia e meia e as duas e vinte e três revolucionou o rumo da minha existência, começando com a confirmação da minha suspeita de que algo de errado se passava comigo: não poderia ter filhos.

A duração da viagem de autocarro foi o tempo de que precisei para chorar a destruição do meu sonho de infância, da minha missão de vida. Cheguei então junto da tua mãe, que me esperava à porta de casa, com um ramo de flores na mão.

– Parabéns! – disse-me, deixando-me atónita.

– Porquê?

– Porque vais ser tia. E madrinha!

E foi ali, à porta da tua primeira casa, que as lágrimas me caíram novamente pela cara abaixo. Estas de redenção, de emoção, de felicidade e de um amor que, vim a descobrir mais tarde, só aumentaria.

 

As ruas inclinadas desembocavam todas numa ampla praça diante do rio salpicado de barcos – grandes e pequenos – atracados. O sol incidia sobre a água, espalhando o seu brilho estival sem critério.

Lado a lado, Laura e Cláudia passeavam vagarosamente, apreciando como que pela primeira vez as montras com artigos destinados aos turistas: peças em cortiça, postais, fotografias, ímanes e azulejos. Todas as semanas descortinavam ou redescobriam um canto da cidade, culminando sempre a viagem num copo de groselha ou chá, consoante a temperatura, tomado numa esplanada. E era aí, despreocupada e mais ciente de si, que Cláudia se tornava numa pessoa melhor, ainda que não visível a olho nu, perante as opiniões e os testemunhos da madrinha.

– És feliz? – A pergunta de Cláudia não teve introdução nem eufemismos. As duas palavras foram proferidas em cru, veiculando precisamente a intenção desejada.

Laura sorriu levemente, concedendo-se uns instantes para refletir.

– Sou. Porque perguntas?

– Porque era isso que querias ser quando fosses grande. E embora continues a ser pequenina, queria saber se tinhas alcançado tudo o que querias.

Laura estudou aquela jovem diante de si, com uns grandes olhos castanhos enaltecidos por longos cabelos escuros. Devolvia-lhe o olhar penetrante, sorrindo levemente com uns lábios pintados de cor-de-rosa. Conseguia ver nela traços do bebé que vira crescer desde os primeiros minutos de vida e, mais do que enchê-la de orgulho, tranquilizava-a descobrir nela uma mulher bem-sucedida, afável, que herdara de si a preocupação pelos outros e a capacidade de ver sempre o melhor lado de qualquer situação.

– Alcancei, minha querida. Há sempre coisas que se quer fazer, objetivos que se quer atingir, viagens que falta fazer. Mas isso são extras.

Tinha uma família maravilhosa, composta por um marido, uma irmã, um cunhado e, claro, uma afilhada. Trabalhava na sua área de intervenção predileta e dedicava-se a diversas causas sociais, pois sabia que a sua experiência de vida e a tranquilidade com que acordava todos os dias mereciam e deviam ser aplicadas utilmente na melhoria da qualidade de vida de outros menos favorecidos.

– Vê-se em ti – admitiu a afilhada. – Mas queria ter a certeza. Quando for grande quero ser como tu.

– Oh, minha querida. Tu já és como eu.

Sorriram as duas, formando uma cova em cada bochecha rosada e afunilando o queixo.

Ver-te crescer é tanto um privilégio como uma tortura. O tempo foge-nos, mas, simultaneamente, aproxima-nos. Revejo-me em ti, num reflexo mais aperfeiçoado, mais bonito e mais delicado de mim mesma, com ambições, preocupações e interesses semelhantes.

Ofereci-te hoje a tua primeira máquina fotográfica e arrastámo-nos imediatamente para a rua. Fotografaste-me, ao mar, às rochas, ao sol escondido por trás das nuvens, aos bebés que corriam atrás das gaivotas. E eu fotografei-te a ti, entregue à tua nova paixão, capturando, finalmente, aquilo que mais amas: a vida.

Embora me sinta como tua mãe, tive uma sorte enorme por não o ser porque, quando chegaste à idade crítica da adolescência, em que, invariavelmente, as meninas se afastam das mães, continuaste a contar comigo. E eu continuei lá para ti.

Deixei de te ensinar cantigas como a da boneca que veio de Paris, deixámos de pentear os teus bebés a fingir, mas crescemos juntas.

E sempre que te digo que te amo, meu amor, é verdade. É a minha maior verdade.

Agora que o nosso tempo está a chegar ao fim, sou e tenho aquilo que sempre quis. Deixo em ti o meu legado, o meu futuro. E nestas páginas encontras o teu retrato. Sempre que te esqueceres de quem és ou se te sentires desamparada, lê-as. Fala comigo. Nunca vais ter de ficar sozinha.

De joelhos, sentada sobre os calcanhares, Cláudia abria a mala de viagem de couro castanho que a madrinha lhe deixara sobre a sua cama quando fora internada pela derradeira vez. Não conseguia imaginar o sofrimento em que vivera os últimos meses de vida, especialmente porque o camuflara em palavras e atitudes. Admirava-lhe a garra, a devoção à vida e às pessoas, sentindo-se grata por cada gesto, por cada som, por cada cor, por cada luz.

Cláudia interrogara-se se Laura seria feliz. Naquele momento tinha a certeza de que até na hora da morte fora feliz.

Por baixo da máquina fotográfica que tantas vezes vira Laura manusear, embrulhada em papel de seda, encontrou uma pequena caixa de papel. Abriu-a e, dentro, descobriu três cadernos grossos, cada um com uma capa colorida com um pinheiro desenhado à mão. Folheou o primeiro e percebeu tratar-se de um diário, escrito para uma segunda pessoa que, com alguma surpresa e comoção, percebeu tratar-se de si mesma.

Nos três livros encontrou a história da sua vida até há duas semanas atrás, sob a perspetiva daquela mulher que admirava e que ambicionava eternizar.

Sempre lamentara a sua proibição de ser mãe e que isso a consumisse interiormente sem que ninguém se apercebesse, mas ao longo daquelas páginas manuscritas, percebeu que Laura tivera, em Cláudia, uma filha.

Era uma responsabilidade enorme da qual não sabia estar à altura, mas faria o seu melhor.

Entrou em casa, atravessou o quintal e abriu a porta da arrecadação, de onde saiu empurrando um carrinho de mão carregado de utensílios de jardinagem e um pequeno pinheiro. Escavou na terra, em frente à porta da entrada para a cozinha, um buraco no qual plantou o pinheiro.

– Só me falta plantar uma árvore – comentara Laura alguns meses antes, encostada ao tronco de uma acácia para se abrigar da intensidade do sol de verão.

– Qual seria?

Pensara um bocadinho e respondera:

– Um pinheiro. Assim tinha Natal o ano todo.

Cláudia colocou uma grinalda de luzes sobre a copa da pequena árvore e acendeu-a, apreciando o resultado final. Não mais a apagou e naquele pequeno jardim num arredor do Porto era Natal o ano todo.

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