Efémera distorção

2016-10-24-09-04-58-1
Fotografia @saratrigocalheiros

Com a ponta dos dedos esfarelava, distraidamente, um scone de um castanho dourado perfeito, alheada da conversa que se desenrolava à sua frente. Passeou os olhos pouco observadores pelas paredes de madeira escura, quase rural, incapaz de apreciar a beleza do contraste pintado pelo conforto da sala aquecida pela lareira mesmo em frente ao mar inquieto, separados apenas por um reduzido lençol de areia e um vidro ligeiramente embaciado.

– Vais continuar a destruir o pobre scone ou vais comê-lo?

Mexeu-se no maple branco, apenas para dar sinal de que ouvira a pergunta, não querendo empenhar forças em dar uma resposta.

Fixou-se, finalmente, na colega que a olhava expectante, entre o divertido e o apreensivo.

– Que sentido é que isto faz? – perguntou lentamente. – Este cenário onde estamos neste preciso momento é utópico. Esta harmonia perfeita de materiais, de elementos, que se tocam apenas de raspão não existe. É uma ilusão da qual não fazemos parte, como o mar que, na verdade, só toca na parede ao meu lado porque os meus olhos captam a realidade sob essa perspetiva, de cuja beleza podemos desfrutar durante fugazes instantes.

– Tu fazes parte desta beleza, Catarina. Cada lugar, cada cenário conta uma história diferente de acordo com quem a protagoniza. Tu fazes parte desta. Tu, eu e a Carolina.

Começou a rir às gargalhadas:

– Até isso! Até nós as três somos demasiado perfeitas para a realidade. Olha para nós: Marina, Carolina e Catarina. Três. Nomes com a mesma terminação. Altas, magras, bonitas, bem-sucedidas. Se alguém nos fotografasse agora, éramos uma capa de uma revista qualquer de lifestyle. – Catarina elevara a voz gradualmente. Atirou com um pedaço de scone para o prato, espalhando migalhas na toalha. – E de que é que isso nos serve? – A pergunta saiu num guincho, acompanhada por um encolher de ombros.

As três mulheres não se conheciam bem, apesar de serem colegas de trabalho há já vários anos. Aquela era, aliás, a primeira vez em que se encontravam fora dele.

– Fui perfeita a vida toda – continuou Catarina, mirando as unhas cuidadosamente pintadas de castanho-escuro. – Tirei o curso que devia, porque era o que eu queria, mas também porque era o que os meus pais achavam indicado para mim. Segui os passos do meu pai e nunca tive de procurar trabalho, por ser tão boa no que fazia. Sempre! Nunca fiz uma única coisa errada, nunca tomei uma decisão que não devesse. Até o destino escolhe para mim o caminho correto – voltou a rir, desta vez sem qualquer vontade. – Imaginem que o meu marido me deixou, mas para não ser mãe solteira, sofri um aborto! O mundo decidiu que eu tenho de ser perfeita e o que eu sou é uma personagem de um cenário idílico, sem qualquer controlo daquilo que faço. Sou perfeita e isso não me leva a lado nenhum. Tal como vocês…

Instalou-se um silêncio pesado enquanto Catarina escondia a cara por detrás das mãos, ocultando as lágrimas que secou antes de voltar a encarar as colegas.

– Desculpem…

– Não, tens razão – atalhou Carolina. – Eu sou a mãe, esposa, irmã e filha perfeita. Vivo rodeada de gente mas sinto-me sozinha o tempo todo, porque o peso de todas as responsabilidades e da felicidade de toda a gente está em mim. Quem é que se encarrega da minha? Eu, só eu. Mas não tenho tempo para ela, porque estou demasiado ocupada com os outros. – Arregalou os olhos, sublinhando o que ia dizer. – Amo-os! Amo a minha família, a minha casa, o meu cão e o meu trabalho, mas não tenho nada que seja meu. Tive de desistir de correr quando engravidei, deixei de ter tempo para qualquer outro passatempo… esta é a primeira vez em vários anos que saio de casa sem ser com a família.

Catarina e Carolina entreolharam-se numa solidariedade silenciosa antes de se voltarem para Marina, como que lhe pedindo que falasse.

– Oh, agora é a minha vez? – brincou, desconfortável, a mais nova das três. – Eu não sou perfeita, não sou como vocês Ou melhor, a minha perfeição é só aparente. A minha magreza é resultado de um distúrbio alimentar que me acompanha desde a adolescência, quando andava no ballet, apesar de ter sido por causa disso que tive de desistir. Passo a vida sozinha porque sou escrava dele. Mesmo que consiga expor-me ao mundo e às pessoas tempo suficiente para começar uma relação, nenhuma sobrevive a isto. E apesar de ter todos os conhecimentos das consequências que posso vir a sofrer… e de que posso sofrer já sem sequer ter noção…, de saber a sua origem e a teoria de como acabar com isto… não consigo, porque no fundo não posso ser menos do que perfeita.

O peso das confissões caiu sobre o cenário de perfeição, tornando-o mais lúgubre, lançando sobre ele um véu negro, filtrando, assim, as tonalidades reconfortantes do outono.

– Quem é que nos impôs isto? – Carolina fez um gesto vago com a mão, encolhendo novamente os ombros. – Acho que fomos nós próprias…

Respondeu à sua própria pergunta, vocalizando, no entanto, aquilo que as outras pensavam.

Saíram para a humidade fria da tarde. Faziam juntas o luto do segredo – o individual, mas também o comum – cujo silêncio haviam quebrado. À medida que avançavam sem pressa ao longo do passadiço de madeira por entre as dunas e a vegetação acastanhada, através da qual o ano envelhecia e as estações quentes se desvaneciam, o véu de negritude ia caindo, como uma tira de seda deixada no canto de um sofá de pele.

Tinham alcançado e mantido ao longo dos anos aquilo que a maioria das pessoas almejava. Eram, cada uma, um exemplo da mulher ideal: belas profissionais de sucesso, independentes económica e emocionalmente, pilar de apoio de quem necessitasse – incluindo elas mesmas – e, claro, desempenhavam o papel irrepreensivelmente em cima de um elegante par de saltos altos a compor a toilette imaculada.

Chegaram ao final do passadiço, descalçaram-se e sentaram-se nas rochas com os pés enterrados na areia fria, a admirar a rebentação onde os pássaros pousavam e levantavam em voos incessantes e descoordenados. O vento fustigava-lhes os cabelos que se emaranhavam entre si, resultando num desalinho a que não estavam habituadas, ao mesmo tempo que sentiam a humidade salgada impregnar-se no algodão das calças e atacar a maquilhagem, esbatendo-a.

Os pensamentos vinham e iam ao sabor da movimentação do mar, confundindo-se. Confundindo-as com a sensação inédita de liberdade que, ali pousadas, num momento improvável, tentavam interiorizar.

Assistiram ao espetáculo do pôr-do-sol enevoado, sacudiram a areia dos pés, calçaram os sapatos, compuseram a maquilhagem com a ponta dos dedos, pentearam os cabelos e caminharam de regresso a casa.

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