Dormência

Tenho tanto sono…
O relógio marca apenas 23h45, chegámos aqui nem há meia hora. Talvez devêssemos ter feito uma sesta antes de vir. Ainda vou adormecer aqui em pé.
Estou a transpirar, mas não posso ter calor. A noite está gelada, está toda a gente de casaco vestido, não posso ter calor. Mas não aguento, tenho de me despir.
Onde ponho o casaco agora? Não tenho força para o segurar nos braços… há um formigueiro que me entorpece, quase como uma anestesia geral. Será que fui drogada?
Abrir os olhos, respirar e manter a cabeça erguida. Respirar ar fresco.
A minha barriga! Dói tanto… Será que vou vomitar? Ou pior…! Como é que corro daqui para a casa de banho? Não há nenhum caminho livre, vou ter de me aguentar aqui. São só mais umas horas.
Preciso de me agarrar a qualquer coisa. A ele? Não, a ele não. Está a dançar e… a ele não. Às grades. Seguro-me às grades para não perder o equilíbrio.
– Estás bem? – ouço-o perguntar muito lá longe, mas sou ainda capaz de detetar a nota de desdém com que me fala.
Consigo apenas abanar a cabeça que me cai por entre os braços estendidos, as mãos fincadas nas grades para não cair ao chão. Tento erguê-la, mas sou novamente vencida pelo peso da minha própria cabeça. As costas desistiram e estou já completamente dobrada em direção ao chão. De alguma forma, as minhas mãos conseguem ajudar-me a debater-me com todo aquele entorpecimento.
Dou então conta de que não vejo nem ouço nada e começo a entrar em pânico. Se calhar vou desmaiar. Abro os olhos, que pousam nos pés dele: continuam a dançar.
Ergo novamente a cabeça, mas as minhas energias esvaíram-se do meu corpo numa questão de rápidos segundos e estou prestes a entrar em contacto com o chão.
Espero sentir uma mão dele a segurar-me, suplico-lhe mentalmente que me pegue ao colo e me liberte daquele sofrimento atroz que me aterroriza. Percebo que parou de dançar, inclina-se sobre mim sem me tocar e pergunta novamente:
– Que é que foi?
– Não sei! – consigo gritar, quase em pânico. A cabeça lateja e, ao mesmo tempo, parece completamente vazia. Os olhos rodopiam e estou cada vez mais zonza. Acho que balbucio alguma coisa, mas ele tornou a afastar-se e retomou a sua dança.
Estou prestes a desistir e a soltar as mãos das grades quando o segurança se aproxima dele e lhe pergunta:
– O que se passa?
Ouço-o responder:
– Não sei.
Sem parar de dançar.
O segurança puxa-me firme mas delicadamente os braços para cima até conseguir que os nossos olhos se encontrem. Pergunta-me se quero que me tire dali.
Olho para ele, egoisticamente dançarino, e vejo o esgar reprovador com que me olha.
Há um medo maior e crescente que se apodera de mim.
Aceno com a cabeça e sou levada em braços para longe da multidão alheia ao que ali se passa ou, provavelmente, assumindo que é mais um caso de intoxicação alcoólica.
Assim que os meus pés pisam o chão livre, a cabeça volta ao seu peso normal, recupero a visão e a audição e tremo de frio.
Bebo uns golos de água e encontro-o lá atrás, longe do palco e da confusão. Parece contrariado. Chateado? Não pode ser. Preocupado, se calhar.
Aproximo-me dele envergonhada, sem saber como reagir. Procuro-lhe a mão, mas retira-a, fingindo ir nesse preciso instante compor o cabelo.
– Que foi? – pergunto, por fim, tentando mostrar-lhe que já passou e que fiquei bem.
Não olha para mim e começa a andar. Acelero o passo para o acompanhar.
– Que foi?! – questiona quando, finalmente, para. – Foi que estás sempre tão preocupada com tudo, tão ansiosa, tão stressada que não consegues estar um bocadinho tranquila ao meu lado. E tinhas de escolher logo o momento do concerto para te dar um ataquinho de ansiedade. Perdemos um bom lugar!
Abro os olhos em alvo, estupefacta com tamanha estupidez.
– Achas que isto foi por tua causa?
– Tenho a certeza – atirou.
Eu não sei o que foi isto nem o que o motivou, mas aproveito a deixa dele:
– Se tens a certeza, talvez devesses então questionar as tuas atitudes.
Vira-se de frente para mim, mostrando um sorriso zangado:
– O mal está em ti. Está sempre em ti.
Vira-me as costas e fura a multidão.
Inspirando golfadas de ar fresco enquanto ouvia a música do concerto chegar até mim, não me apercebi logo de que as palavras que ele proferira se cravavam no meu corpo, perfurando-o tão nefastamente que se colaram à minha alma, cobrindo-a. Deixei-as entrar sem dar luta, porque fora ele que as dissera.
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