Boa sorte e até um dia

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Fotografia: @saratrigocalheiros
Ao fim de todos aqueles anos, viu as paredes despidas, tal como no dia em que as vira pela primeira vez, um pouco mais sujas, cativeiros de memórias e de histórias irrecuperáveis pelo andar dos dias. O quadro em tons de vermelho e preto que correra meio mundo para adquirir estava já embalado, a caminho do seu novo destino: um armazém nos arredores da cidade, suspenso no tempo até que lhe fosse indicado um novo rumo.
Rodou sobre si mesmo, inspirando o odor característico daquele hall onde tantas pessoas se haviam cruzado, onde o verniz já baço dos tacos revelava incomensuráveis passagens de sapatos. Tinha lágrimas de nostalgia, apreensão e excitação prontas para saltar, assim que lhes desse ordem. Em vez disso, apertou o cachecol aconchegado ao pescoço, fechou o blusão castanho de pele, soltou um suspiro e arrastou as duas malas cheias pela porta em direção ao carro.
Lá fora chovia sobre um dia cinzento, pelo que o movimento na rua era escasso. Engoliu o nó que se lhe formava na garganta e colocou as mãos no volante daquele carro dos anos 60, herdado do avô, que o guiava para qualquer lado desde os seus vinte anos. Aquele dia chegara mesmo.
Tinha começado a pensar nele um ano antes – quando ainda faltava tanto que a ideia era um pouco abstrata demais para poder ser realmente concretizada. Falara dela a dois amigos numa esplanada por cima do rio, acompanhado de um chá fresco num final de verão. Fora aí que começara a tornar-se – mais ou menos – real.
Pensara na decisão todos os dias, mentalizando-se de que não havia volta a dar. Não porque, de facto, não houvesse, mas porque não queria que houvesse. Precisava daquela mudança para que o ar voltasse a passar puro pelos pulmões, para que as noites voltassem a ser de sono, para que os fantasmas não continuassem a atormentá-lo a cada momento, impiedosos e gozões.
E aqui estava ele, naquele domingo triste, tendo apenas por companhia a sua vida toda enfiada no porta-bagagens.
Não o sabia, mas estava pronto, apesar do receio do desconhecido.
Ligou o carro, meteu a primeira e arrancou, muito devagar, ao contrário do que era habitual.
Os pneus deslizaram lentamente pelos paralelos escorregadios, deixando para trás o conforto que sempre conhecera, as pessoas que o tinham acompanhado desde o início e o projeto que iniciara no começo da sua vida adulta, quando o seu cabelo era, ainda, todo da mesma cor, para abraçar um novo projeto não totalmente delineado.
Meteu a segunda e acelerou, dirigindo-se para auto-estrada.
De janelas abertas até meio, a 160 km/h, com o rádio ligado numa qualquer música abafada pelo som do vento, soltou uma gargalhada vinda não se sabe de onde, mas que não conseguiu controlar.
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