Cronologia

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[Texto originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita]

O azul e vermelho dos estofos já apagados contrastavam com o brilho da luz da manhã a embater na janela, à qual encostava a cabeça de forma a olhar para o exterior estando, ao mesmo tempo, atento ao que acontecia dentro da carruagem. Havia um ritmo que se repetia quase exaustivamente todas as manhãs, como um desígnio que se cumprisse estritamente para evitar o efeito borboleta.

A professora de História sentava o filho adolescente, mantendo-se de pé ao seu lado com um tablet na mão, pelo qual lia as notícias do dia. Saíam três estações depois, cruzando-se com os três funcionários de supermercado e o, provavelmente, economista, que se espalhavam por onde houvesse lugar. Reconhecia-lhes as caras e as vozes, entretinha-se a escutar-lhes as conversas sem prestar muita atenção, imaginando as pessoas que evocavam, bem ou mal.

Era quando o metro se renovava de passageiros que o via, com a risca ao lado perfeitamente delineada, o uniforme de colégio e a pasta maior do que as costas. Sentava-se à sua frente, furando a multidão, e começava a balançar os pés, longe do chão. Recriando quase exatamente a sua versão infantil.

Havia naquele miúdo algo de familiar. Bastante, até, pelo que deu por si a focar o olhar nos seus gestos, semiescondido por trás do jornal.

Tinha as mãozinhas ainda rechonchudas do final da infância, os olhos, por detrás de um par de óculos, atentos ao mundo e aos seus detalhes, sorria, muitas vezes, como se dentro da sua cabeça se passasse um desenho animado.

Saíam na mesma estação, subiam as escadas rolantes um à frente do outro e separavam-se só na saída, indo para caminhos opostos: o miúdo para a escola, o adulto para o trabalho.

Reviam-se no dia seguinte, não mostrando sinais de reconhecimento, mas sentando-se sempre virados um para o outro.

– Andaste à chuva… – comentou, ouvindo o miúdo espirrar três vezes seguidas.

Ele limpou o nariz a um lenço de papel e explicou:

– Não, ontem quando saí da piscina estava muito frio.

– Andas na natação?

– Sim. E ontem tive o último treino antes da competição.

– Eu quando tinha a tua idade também andava na natação. Ainda ganhei algumas provas.

Os olhos do miúdo brilharam:

– A sério? E porque deixaste?

Pensou um bocado, piscou-lhe o olho e respondeu:

– Por causa das miúdas. Não tinha tempo para tudo. Vais ver, quando elas começarem a aparecer.

O miúdo franziu o nariz:

– Eu já tenho uma namorada.

– Só uma?!

Olhou-o com um olhar inquisidor desafiante:

– Sim. Gosto muito dela.

– Podes gostar muito dela e de mais uma. Ou mais duas. Ou de mais três – riu-se.

Alguém precisava de mostrar às crianças de hoje em dia uma mentalidade diferente. Mais aberta, mais liberal.

– Acredita, na tua idade também só tinha uma namorada. E era bom. Mas quando tive duas passou a ser melhor ainda.

– E agora, quantas tens?

– Nenhuma. Tenho várias amigas.

– Eu não gostava que a minha namorada tivesse vários namorados.

– Eu também não – riu-se novamente.

À saída da estação, depois de lhe desejar boas aulas, sentiu-se orgulhoso da influência que acabara de ter na vida de uma criança. Estava certo de que lhe mostrara um caminho mais direto para a felicidade.

– A minha mãe disse que não é bonito ter mais do que uma namorada.

– Se alguma for feia não. Mas não serve de nada ter uma namorada feia. Como se chama a tua mãe?

– Maria Amélia.

– É como a minha! – exclamou, contente por encontrar mais um elo de ligação com o miúdo. – Então tens de dizer à tua mãe Maria Amélia que precisas de ter uma para quando te chateares com a outra. Elas às vezes estão de mau humor ou ocupadas.

– Não, a minha mãe diz que quem tem mais do que uma namorada faz mal às mulheres e depois acaba sempre sozinho.

– Isso é o que a sociedade diz. Se não houvesse essas regras ninguém se chateava.

– Ela diz que tem a ver com o amor. Que se eu amar alguém quero estar só com essa pessoa e tratá-la muito bem e fazê-la feliz.

– Mas não precisas de amar só uma pessoa. Amas a tua mãe?

– Claro! – A indignação do miúdo foi evidente.

– E amas o teu pai?

– Sim! – A dúvida começou a instalar-se.

– E achas que estás a tratar mal a tua mãe por amares o teu pai?

Pensou um bocado, tentando digerir aquela linha de pensamento.

– Uh, não… – respondeu hesitante.

– Então lá está! Amas duas pessoas, tens tempo para as duas, tratas bem as duas e não tem mal nenhum.

Vinha de sobrolho franzido quando se sentou nos estofos gastos:

– Ontem a Madalena zangou-se comigo!

– Quem é a Madalena?

– É a minha namorada.

Foi incapaz de esconder a admiração:

– A minha namorada da primária também se chamava Madalena!

– Pensei que tinhas tido mais do que uma.

Riu-se, recordando a inocência:

– Na primária só tive uma. Depois no liceu é que descobri o que é bom. Mas porque se zangou contigo?

Cruzou os braços bruscamente:

– Porque eu lhe disse que queria ter outra namorada.

Soltou uma gargalhada:

– Não lhe podes dizer isso! Primeiro arranjas outra e só passado muito tempo, quando tiveres a certeza que nenhuma das duas se vai embora, é que podes deixar que saibam uma da outra. Mas não podes contar diretamente, dizes só um dia “hoje não posso ir ter contigo, porque já tenho coisas combinadas com a não sei quantas”. E ela não questiona.

– E se não gostar?

– Não vai gostar. Mas não vai fazer nada, porque já está demasiado presa a ti. Só tens de saber fazer as coisas bem.

– Como é isso?

– Tens de a fazer sentir-se especial quando está contigo mas tens de a fazer acreditar que sem ti não vale nada.

O miúdo franziu a testa, visivelmente em desacordo com aquelas palavras.

– A Madalena é bonita. E todos os rapazes gostam dela. E é a melhor aluna da turma. E faz ballet.

– Isso não interessa para nada. Essas coisas guardas para lhe dizeres só tu. Tens é de encontrar os defeitos dela, por mais pequenos que sejam, e mostrar-lhe quão errados são. Mas não de uma forma óbvia. É um longo processo, que implica que lhe mostres a todo o instante que não concordas com ela, que não achas bem as atitudes que ela tem, fazê-la perceber que aquilo em que acredita é inútil. E, claro, ela tem de chegar à conclusão de que as tuas ideias e o que tu dizes é que está certo. Só nessa altura é que pode saber da existência da outra namorada. Ou amiga.

– Não sei se quero fazer isso…

– Não se trata de querer, mas de necessidade. Se fores como eu, essa é a tua mais valia. Não sou muito alto, e as mulheres gostam de homens altos. Gosto mais de máquinas do que de pessoas. Nunca me saí muito bem com as miúdas até ao secundário, que era quando elas estavam mais frágeis, por causa das borbulhas e das lutas para emagrecer. Aí aprendi a conquistá-las.

Luísa acabara de o informar que teria de tomar conta dos filhos nessa tarde, pelo que os planos de jantar teriam de ser adiados. Não lhe apetecia cozinhar, pelo que convidou Lara para o acompanhar a um restaurante qualquer.

– Não gosto de fazer planos – dizia sempre, à partida, para que lhe fosse mais fácil manter o malabarismo sem grandes confusões.

Lara tinha já um jantar combinado… Teria de descobrir com quem. Estava habituado à sua total disponibilidade, o que o deixava confortável na certeza de que não teria o seu status-quo a ser reclamado por um alguém qualquer.

– Senhor, como é que eu sei com qual quero casar e ter filhos?

Desviou o olhar da janela e concentrou-se no miúdo.

– Senhor, não. Antero.

O miúdo soltou uma exclamação de surpresa:

– Eu também me chamo Antero! Era o nome do meu avô.

Mirou-o atónito, incapaz de acreditar no que ouvia. Estudou-lhe os olhos castanhos, o cabelo alourado, o nariz adunco, a cicatriz no canto do olho esquerdo, as unhas roídas. Eram demasiadas coincidências, demasiadas semelhanças, como se diante de si tivesse um espelho que o reportava para há trinta anos atrás.

Gaguejou, respirou fundo três vezes e explicou-lhe:

– Vais saber. O truque é não pensar e saber quando ceder àquilo que elas querem e quando seguir aquilo que tu queres. As mais inseguras vão rejeitar tudo para te fazerem as vontades. Há uma que é mais segura do que as outras. Com essa vais ter de dar o braço a torcer algumas vezes.

Levantou-se do banco, vestiu o casaco e disse-lhe, antes de sair numa estação qualquer, em busca de ar:

– Não te preocupes. Vais-te safar bem. Só tens de acreditar em ti. Mesmo quando não o conseguires.

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