Sarices

Faltava cerca de uma hora e meia para a hora marcada. Sentada na beira da cama, observou num estado a roçar o pânico a montanha de peças de roupa que se formara ali, diante dos seus pés, em poucos minutos. Apesar de ter escolhido mentalmente a toilette que iria usar há já vários dias, no momento em que se viu com ela a cobrir-lhe o corpo, gritou horrorizada perante um aspeto tão negativamente diferente daquele que imaginara.

Entretanto, ficara sem hipóteses, ganhara um poço de lágrimas a querer saltar-lhe de cada olho, soltara urros de exasperação e estava tentada a cancelar tudo. Antes disso, no entanto, voltou à escolha inicial, escolheu uma parte de cima ligeiramente diferente e completou o conjunto com o par de sapatos novo, mais alto do que o habitual. A medo, colocou-se diante do espelho… e bateu palmas de satisfação: não estava assim tão mal!

Um jeito ao cabelo e uma mínima dose de maquilhagem conseguiram conferir-lhe a confiança de que estava realmente bonita. Talvez conseguisse impressiona-lo, até.

No muito – demasiado – tempo que restava até ele ir busca-la à porta de casa, reviu mentalmente o momento em que se cruzara com ele pela primeira vez numa festa de aniversário de um quase desconhecido e o desafiara para dançar, surpreendendo-se a si mesma. Sentira choques percorrê-la durante todo o tempo em que os seus corpos se tocaram e passou o resto da noite vidrada nas palavras que lhe saíam da boca, tão cheias de histórias, de viagens e de projetos que, de facto, estavam a ser concretizados!

Ouviu a campainha tocar, controlou – de uma forma muito mal conseguida – os tremores do corpo, reviu mentalmente o que não deveria dizer e desceu as escadas.

Abriu a porta e não teve de forçar, minimamente, o enorme sorriso que a visão dele lhe provocou instantaneamente:

– Uau! – exclamou.

Ele riu-se.

“Oh não! Eu disse isto em voz alta!”, pensou, recriminando-se.

No carro, numa tentativa de não deixar espaços para silêncios embaraçosos, começou a falar atabalhoadamente sobre passar por aquela mesma rua todos os dias no caminho para o trabalho. Podia ir de autocarro, mas habituara-se a usar o carro e já se sabe que custa sempre voltar atrás, até porque sempre pode ouvir a sua própria música, ou dar boleia e ir a conversar, ou fugir ao trânsito… Embora, para dizer a verdade, as colunas do carro fossem fracas. Bem, eram fracas e pirosas, porque tinham sido alteradas pelo antigo proprietário só que, para além das colunas, o carro em si é bastante piroso.

– Aliás, eu acho que os Seat Ibiza são bastante pirosos em geral.

– Achas? – perguntou ele, desviando o olhar da estrada e dirigindo-lhe um sorriso divertido.

Ela olhou em volta, sem conseguir achar a resposta que procurava:

– Estou dentro de um Seat Ibiza, não estou?

Chegados à beira-rio, à porta do restaurante, observou por momentos a água que refletia o brilho suave da lua naquela noite de algum nevoeiro e sentiu-se, ao fim de bastante tempo, tranquila. Feliz, até. Entusiasmada. Saiu do carro e tentou disfarçar o melhor possível a dor que a cabeçada dada no puxador lhe provocou.

– Estás bem?- Perguntou ele.

– Sim, claro – respondeu ela, fingindo com a pior das naturalidades que não sabia ao que ele se referia.

– Quando era pequeno vinha aqui muitas vezes ao fim de semana de manhã andar de bicicleta com o meu pai – contou ele, conduzindo-a a caminhar paralelamente ao rio. – A minha mãe ficava em casa com a minha irmã e era o nosso momento de homens. Depois elas vinham cá ter para almoçarmos sempre ali, naquele café de toldo amarelo.

– Eu ao sábado de manhã tinha aulas de música. Ao domingo dormia para não ter de ir à missa.

A sério?! Fora mesmo aquela a sua resposta à partilha que ele acabara de fazer de um pouco da sua vida?

Dirigiram-se para a porta do restaurante no momento em que o nevoeiro os presenteara com uma chuva que, embora ligeira, fora suficiente para os deixar pegajosos e com os cabelos menos apresentáveis do que originalmente.

Ele tinha feito reserva. Nunca ninguém fizera uma reserva para a levar a jantar! Entregou o casaco ao empregado e seguiu-o até à mesa que lhes fora destinada. Conseguiu dar apenas dois passos antes de a combinação fatal de chão de madeira com sapatos molhados a enviarem de mãos ao chão.

– Estás bem? – perguntou ele, pela segunda vez naquela noite, genuinamente preocupado.

– Sim – respondeu ela, morrendo de vergonha.

– Anda, segura-te a mim para não ires parar ao hospital antes de conseguirmos jantar.

Mais uns pares de passos adiante, ficou pendurada no braço dele, a centímetros do chão e perante o olhar entre o divertido e o preocupado de todos os presentes.

– Então? – perguntou ele, sabendo que rir não era a melhor reação.

Ela parou, com o braço ainda preso no dele, olhou-o nos olhos e esclareceu:

– Se a nossa mesa é aquela ali do canto, isto ainda vai acontecer mais algumas vezes. E podes rir-te à vontade.

Todavia, perante tal declaração, o empregado colocou-se do lado direito dela e amparou-lhe o braço livre durante o resto do percurso.

Sentaram-se e, antes de conseguir olhar para a ementa que lhe fora colocada à frente, ela informou-o:

– Já estava nervosa, mas agora fiquei bastante mais. Posso gaguejar.

A gargalhada dele acalmou-a ligeiramente.

Foi-lhes servido um copo de um delicioso vinho tinto adocicado que fizeram acompanhar de um bife e uma mistura de legumes numa espécie de combinado de nouvelle cuisine com cozinha portuguesa.

Enquanto ele falava, ela mantinha-se ocupada a beber ou a comer, na maioria do tempo, para evitar responder-lhe com algum disparate ou alguma sobre-exposição dos seus pensamentos. Ele deixava-a nervosa o que, por um lado, era terrível, pois sentia-se sem controlo absolutamente diante dele, sedenta de mais conversa, de mais partilha, mas incapaz de lha devolver na mesma forma tranquila com que ele se apresentava diante dela. Por outro… não sabia que era possível sentir-se tão intensamente arrebatada por alguém que, com um só olhar, conseguia tocar partes da sua alma.

Queria que ele a achasse tão interessante como ela o achava a ele, que, no mínimo, no final da noite levasse para casa recordações de momentos intensos que dificilmente esqueceria, de histórias que pudesse contar às outras pessoas sobre aquela rapariga que…

– Ai!

Não percebeu logo o que aconteceu, mas sentiu pedaços de algo duro e desconfortável na boca. Um líquido começou a escorrer-lhe pelo queixo em direção ao decote exposto e foi então que se apercebeu de que mordera o copo de vinho com tanta força que acabara por parti-lo.

– Estás bem? – Perguntou ele novamente, enquanto ela cuspia os cacos por detrás do guardanapo de pano.

– Sou um desastre! – Esclareceu ela, por fim, levantando-se para ir à casa de banho bochechar.

– Espera! – pediu ele. – Por favor não caias, ainda por cima com vidros na boca.

Conseguiu essa proeza e ainda a de não ficar com a roupa manchada.

Voltou a sentar-se diante do prato ainda meio comido. Entrelaçou as mãos uma na outra, mordeu o lábio, torceu a boca e acabou por dizer:

– É verdade o que disse: sou um desastre e acontece-me tudo. Provavelmente não vou chegar a casa antes de me acontecer mais alguma coisa estranha. Isso para quem está comigo pode ser bom, porque o que tiver de acontecer é a mim que acontece, mas também pode ser desconfortável, porque passo a vida a cair e a fazer os outros passar por vergonhas por causa de coisas parvas.

Do outro lado da mesa, ele voltou a sorrir com sinceridade e disse-lhe:

– Juro que nunca me diverti tanto em tão pouco tempo com alguém. Só tenho algum receio de que te magoes…

– Raramente me magoo…

– Ao menos isso!

Ele riu-se e estendeu-lhe a mão por cima da mesa. Ficou confusa durante alguns instantes, mas lá percebeu que ele queria que ela lhe desse a sua, pelo que, o mais graciosamente que conseguiu, foi o que fez… Levando à frente o copo de água, que se entornou sobre a toalha e pingou para o chão.

– Esta foi de propósito! – riu ele.

Ela corou:

– Não…

Evitou a sobremesa porque o estômago se lhe comprimira de vergonha e com a certeza de que nunca mais voltaria a ver aquele homem à sua frente, a menos que fosse por acaso. Saíram para a noite fresca, onde ele lhe rodeou os ombros com um braço forte, provocando-lhe nova onda de arrepios pelas costas acima. Não queria que ele retirasse aquele contacto tão agradável entre os dois corpos, mas o frio falou alto de mais, obrigando-a a retirar da carteira o casaco de malha. E o porta-moedas, e a embalagem da pílula, e um tampão, e uma caixa de chiclets e alguns talões, que se espalharam sem dó nem piedade pelo chão.

– A sério?! – Exclamou ela, exasperada com a sua própria falta de jeito geral para, enfim, tudo.

– Acho-te imensa piada – confessou ele. – Sabes, sem qualquer nota depreciativa, fazes-me lembrar as mulheres daqueles filmes cómicos maus, muito bonitas, muito bem vestidas, que se aproximam em câmara lenta do namorado, os espectadores estão à espera de que elas sejam sexys, mas elas acabam por cair ou por ir contra alguma coisa.

Teve de rir-se:

– Por isso é que eu já nem tento ser sexy, para não defraudar as expectativas de ninguém…

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