Dormência

Tenho tanto sono…
O relógio marca apenas 23h45, chegámos aqui nem há meia hora. Talvez devêssemos ter feito uma sesta antes de vir. Ainda vou adormecer aqui em pé.
Estou a transpirar, mas não posso ter calor. A noite está gelada, está toda a gente de casaco vestido, não posso ter calor. Mas não aguento, tenho de me despir.
Onde ponho o casaco agora? Não tenho força para o segurar nos braços… há um formigueiro que me entorpece, quase como uma anestesia geral. Será que fui drogada?
Abrir os olhos, respirar e manter a cabeça erguida. Respirar ar fresco.
A minha barriga! Dói tanto… Será que vou vomitar? Ou pior…! Como é que corro daqui para a casa de banho? Não há nenhum caminho livre, vou ter de me aguentar aqui. São só mais umas horas.
Preciso de me agarrar a qualquer coisa. A ele? Não, a ele não. Está a dançar e… a ele não. Às grades. Seguro-me às grades para não perder o equilíbrio.
– Estás bem? – ouço-o perguntar muito lá longe, mas sou ainda capaz de detetar a nota de desdém com que me fala.
Consigo apenas abanar a cabeça que me cai por entre os braços estendidos, as mãos fincadas nas grades para não cair ao chão. Tento erguê-la, mas sou novamente vencida pelo peso da minha própria cabeça. As costas desistiram e estou já completamente dobrada em direção ao chão. De alguma forma, as minhas mãos conseguem ajudar-me a debater-me com todo aquele entorpecimento.
Dou então conta de que não vejo nem ouço nada e começo a entrar em pânico. Se calhar vou desmaiar. Abro os olhos, que pousam nos pés dele: continuam a dançar.
Ergo novamente a cabeça, mas as minhas energias esvaíram-se do meu corpo numa questão de rápidos segundos e estou prestes a entrar em contacto com o chão.
Espero sentir uma mão dele a segurar-me, suplico-lhe mentalmente que me pegue ao colo e me liberte daquele sofrimento atroz que me aterroriza. Percebo que parou de dançar, inclina-se sobre mim sem me tocar e pergunta novamente:
– Que é que foi?
– Não sei! – consigo gritar, quase em pânico. A cabeça lateja e, ao mesmo tempo, parece completamente vazia. Os olhos rodopiam e estou cada vez mais zonza. Acho que balbucio alguma coisa, mas ele tornou a afastar-se e retomou a sua dança.
Estou prestes a desistir e a soltar as mãos das grades quando o segurança se aproxima dele e lhe pergunta:
– O que se passa?
Ouço-o responder:
– Não sei.
Sem parar de dançar.
O segurança puxa-me firme mas delicadamente os braços para cima até conseguir que os nossos olhos se encontrem. Pergunta-me se quero que me tire dali.
Olho para ele, egoisticamente dançarino, e vejo o esgar reprovador com que me olha.
Há um medo maior e crescente que se apodera de mim.
Aceno com a cabeça e sou levada em braços para longe da multidão alheia ao que ali se passa ou, provavelmente, assumindo que é mais um caso de intoxicação alcoólica.
Assim que os meus pés pisam o chão livre, a cabeça volta ao seu peso normal, recupero a visão e a audição e tremo de frio.
Bebo uns golos de água e encontro-o lá atrás, longe do palco e da confusão. Parece contrariado. Chateado? Não pode ser. Preocupado, se calhar.
Aproximo-me dele envergonhada, sem saber como reagir. Procuro-lhe a mão, mas retira-a, fingindo ir nesse preciso instante compor o cabelo.
– Que foi? – pergunto, por fim, tentando mostrar-lhe que já passou e que fiquei bem.
Não olha para mim e começa a andar. Acelero o passo para o acompanhar.
– Que foi?! – questiona quando, finalmente, para. – Foi que estás sempre tão preocupada com tudo, tão ansiosa, tão stressada que não consegues estar um bocadinho tranquila ao meu lado. E tinhas de escolher logo o momento do concerto para te dar um ataquinho de ansiedade. Perdemos um bom lugar!
Abro os olhos em alvo, estupefacta com tamanha estupidez.
– Achas que isto foi por tua causa?
– Tenho a certeza – atirou.
Eu não sei o que foi isto nem o que o motivou, mas aproveito a deixa dele:
– Se tens a certeza, talvez devesses então questionar as tuas atitudes.
Vira-se de frente para mim, mostrando um sorriso zangado:
– O mal está em ti. Está sempre em ti.
Vira-me as costas e fura a multidão.
Inspirando golfadas de ar fresco enquanto ouvia a música do concerto chegar até mim, não me apercebi logo de que as palavras que ele proferira se cravavam no meu corpo, perfurando-o tão nefastamente que se colaram à minha alma, cobrindo-a. Deixei-as entrar sem dar luta, porque fora ele que as dissera.

Efémera distorção

2016-10-24-09-04-58-1
Fotografia @saratrigocalheiros

Com a ponta dos dedos esfarelava, distraidamente, um scone de um castanho dourado perfeito, alheada da conversa que se desenrolava à sua frente. Passeou os olhos pouco observadores pelas paredes de madeira escura, quase rural, incapaz de apreciar a beleza do contraste pintado pelo conforto da sala aquecida pela lareira mesmo em frente ao mar inquieto, separados apenas por um reduzido lençol de areia e um vidro ligeiramente embaciado.

– Vais continuar a destruir o pobre scone ou vais comê-lo?

Mexeu-se no maple branco, apenas para dar sinal de que ouvira a pergunta, não querendo empenhar forças em dar uma resposta.

Fixou-se, finalmente, na colega que a olhava expectante, entre o divertido e o apreensivo.

– Que sentido é que isto faz? – perguntou lentamente. – Este cenário onde estamos neste preciso momento é utópico. Esta harmonia perfeita de materiais, de elementos, que se tocam apenas de raspão não existe. É uma ilusão da qual não fazemos parte, como o mar que, na verdade, só toca na parede ao meu lado porque os meus olhos captam a realidade sob essa perspetiva, de cuja beleza podemos desfrutar durante fugazes instantes.

– Tu fazes parte desta beleza, Catarina. Cada lugar, cada cenário conta uma história diferente de acordo com quem a protagoniza. Tu fazes parte desta. Tu, eu e a Carolina.

Começou a rir às gargalhadas:

– Até isso! Até nós as três somos demasiado perfeitas para a realidade. Olha para nós: Marina, Carolina e Catarina. Três. Nomes com a mesma terminação. Altas, magras, bonitas, bem-sucedidas. Se alguém nos fotografasse agora, éramos uma capa de uma revista qualquer de lifestyle. – Catarina elevara a voz gradualmente. Atirou com um pedaço de scone para o prato, espalhando migalhas na toalha. – E de que é que isso nos serve? – A pergunta saiu num guincho, acompanhada por um encolher de ombros.

As três mulheres não se conheciam bem, apesar de serem colegas de trabalho há já vários anos. Aquela era, aliás, a primeira vez em que se encontravam fora dele.

– Fui perfeita a vida toda – continuou Catarina, mirando as unhas cuidadosamente pintadas de castanho-escuro. – Tirei o curso que devia, porque era o que eu queria, mas também porque era o que os meus pais achavam indicado para mim. Segui os passos do meu pai e nunca tive de procurar trabalho, por ser tão boa no que fazia. Sempre! Nunca fiz uma única coisa errada, nunca tomei uma decisão que não devesse. Até o destino escolhe para mim o caminho correto – voltou a rir, desta vez sem qualquer vontade. – Imaginem que o meu marido me deixou, mas para não ser mãe solteira, sofri um aborto! O mundo decidiu que eu tenho de ser perfeita e o que eu sou é uma personagem de um cenário idílico, sem qualquer controlo daquilo que faço. Sou perfeita e isso não me leva a lado nenhum. Tal como vocês…

Instalou-se um silêncio pesado enquanto Catarina escondia a cara por detrás das mãos, ocultando as lágrimas que secou antes de voltar a encarar as colegas.

– Desculpem…

– Não, tens razão – atalhou Carolina. – Eu sou a mãe, esposa, irmã e filha perfeita. Vivo rodeada de gente mas sinto-me sozinha o tempo todo, porque o peso de todas as responsabilidades e da felicidade de toda a gente está em mim. Quem é que se encarrega da minha? Eu, só eu. Mas não tenho tempo para ela, porque estou demasiado ocupada com os outros. – Arregalou os olhos, sublinhando o que ia dizer. – Amo-os! Amo a minha família, a minha casa, o meu cão e o meu trabalho, mas não tenho nada que seja meu. Tive de desistir de correr quando engravidei, deixei de ter tempo para qualquer outro passatempo… esta é a primeira vez em vários anos que saio de casa sem ser com a família.

Catarina e Carolina entreolharam-se numa solidariedade silenciosa antes de se voltarem para Marina, como que lhe pedindo que falasse.

– Oh, agora é a minha vez? – brincou, desconfortável, a mais nova das três. – Eu não sou perfeita, não sou como vocês Ou melhor, a minha perfeição é só aparente. A minha magreza é resultado de um distúrbio alimentar que me acompanha desde a adolescência, quando andava no ballet, apesar de ter sido por causa disso que tive de desistir. Passo a vida sozinha porque sou escrava dele. Mesmo que consiga expor-me ao mundo e às pessoas tempo suficiente para começar uma relação, nenhuma sobrevive a isto. E apesar de ter todos os conhecimentos das consequências que posso vir a sofrer… e de que posso sofrer já sem sequer ter noção…, de saber a sua origem e a teoria de como acabar com isto… não consigo, porque no fundo não posso ser menos do que perfeita.

O peso das confissões caiu sobre o cenário de perfeição, tornando-o mais lúgubre, lançando sobre ele um véu negro, filtrando, assim, as tonalidades reconfortantes do outono.

– Quem é que nos impôs isto? – Carolina fez um gesto vago com a mão, encolhendo novamente os ombros. – Acho que fomos nós próprias…

Respondeu à sua própria pergunta, vocalizando, no entanto, aquilo que as outras pensavam.

Saíram para a humidade fria da tarde. Faziam juntas o luto do segredo – o individual, mas também o comum – cujo silêncio haviam quebrado. À medida que avançavam sem pressa ao longo do passadiço de madeira por entre as dunas e a vegetação acastanhada, através da qual o ano envelhecia e as estações quentes se desvaneciam, o véu de negritude ia caindo, como uma tira de seda deixada no canto de um sofá de pele.

Tinham alcançado e mantido ao longo dos anos aquilo que a maioria das pessoas almejava. Eram, cada uma, um exemplo da mulher ideal: belas profissionais de sucesso, independentes económica e emocionalmente, pilar de apoio de quem necessitasse – incluindo elas mesmas – e, claro, desempenhavam o papel irrepreensivelmente em cima de um elegante par de saltos altos a compor a toilette imaculada.

Chegaram ao final do passadiço, descalçaram-se e sentaram-se nas rochas com os pés enterrados na areia fria, a admirar a rebentação onde os pássaros pousavam e levantavam em voos incessantes e descoordenados. O vento fustigava-lhes os cabelos que se emaranhavam entre si, resultando num desalinho a que não estavam habituadas, ao mesmo tempo que sentiam a humidade salgada impregnar-se no algodão das calças e atacar a maquilhagem, esbatendo-a.

Os pensamentos vinham e iam ao sabor da movimentação do mar, confundindo-se. Confundindo-as com a sensação inédita de liberdade que, ali pousadas, num momento improvável, tentavam interiorizar.

Assistiram ao espetáculo do pôr-do-sol enevoado, sacudiram a areia dos pés, calçaram os sapatos, compuseram a maquilhagem com a ponta dos dedos, pentearam os cabelos e caminharam de regresso a casa.

Preto, branco ou cinzento

2016-10-25 10.27.17 1.jpg
Fotografia @saratrigocalheiros

Há zangas tão consagradas, que o tempo se encarregou de ocultar a sua origem, tornando-as num dado adquirido inquestionável e eliminando qualquer memória comum, como se nunca tivesse sequer existido alguma. As costas voltadas são, então, o novo estado de ser.

Não é o caso desta que, não consumindo ativamente Sofia, a corrói pouco a pouco, quase sem se deixar notar. Com o tempo, a causa foi-se desvanecendo e todas aquelas falhas que na altura foram suficientemente significativas para afastar Mena da sua vida são, agora, memórias esbatidas de uma tempestade instalada numa chávena de chá. E aquele rancor que a fez desligar o telefone decidida a nunca mais dirigir a palavra à (então) amiga foi substituído por uma outra sensação desagradável de perda e de ausência permanente – a saudade.

Saudade… Mena adorava essa palavra, como qualquer português que ache que se preza. Com efeito, assentava bem na sua alma nostálgica, religiosa e patriótica, na figura da filha dedicada à família e agradecida a tudo e a todos. Nunca chegara a compreender aquela adoração pelos pais, que nada mais tinham feito do que ser os melhores pais que sabiam, à semelhança de quaisquer outros. Nunca chegara a encarar com bons olhos a dedicação quase total aos problemas dos amigos, tomando-os em parte como seus, sofrendo com eles e sentindo o alívio da sua resolução.

Sem o ter jamais reconhecido conscientemente, Mena era a melhor pessoa que conhecia. E era demasiado boa pessoa para Sofia lhe aceitar os erros. Acima de tudo, eram as ausências que atacavam Sofia que, desprovida de Mena, era dominada pela pessoa carente que, no fundo, era.

Lembra-se das últimas palavras que lhe disse, da entoação com que as proferiu e do resultado delas.

Foi numa manhã de dezembro aleatória, enquanto deambulava pelo centro da cidade à procura de um presente de Natal para o pai, que lhe pareceu vê-la. A claridade filtrada pelas nuvens carregadas, nas quais se confundia o fumo das castanhas assadas vendidas nos carrinhos metálicos, cegava os olhos ainda mal despertos, em choque com a separação do sonho.

Estugou o passo e seguiu a cabeleira loura que a conduziu até à entrada de uma loja de roupa. Estacou, em choque. Já ali tinham estado as duas, quando Sofia aconselhara Mena na compra de um vestido para o casamento do qual seria madrinha e que, anos mais tarde, acabaria por ser aquele com que Mena testemunharia, também, o casamento de Sofia.

Estava ainda especada junto à montra, com a confusão estampada no rosto, quando Mena regressou. Estavam frente a frente pela primeira vez em demasiados anos e Sofia cruzou os braços atrás das costas para controlar o impulso de a abraçar.

Por fim, segurou-lhe na mão, puxou-a para um canto e expôs-lhe como apenas recentemente fora capaz de se pôr no lugar dela, de pensar de acordo com a sua perspetiva e de ter uma nova clarividência dos acontecimentos. Reconheceu, para Mena e para si mesma, que aos vinte e quatro anos, achando-se detentora de um conhecimento imenso e soberano, era, na verdade, demasiado pouco adulta para ser capaz de estabelecer empatia com tudo o que diferisse de si. Era uma crítica muda; o braço de ferro que afastava o que não fosse semelhante a si.

– Venham almoçar lá a casa – pediu. – Tu, o teu marido e o teu bebé.

Mais do que um convite, era um pedido, uma admissão de humildade e uma tentativa de corrigir os seus erros e foi com surpresa e apreensão que a ouvira aceitar. Estava preparada para a recusa, para que tudo se mantivesse igual. Não estava, de maneira nenhuma, pronta para agir perante a abertura que encontrara.

Desistiu da busca da prenda, passou no mercado e correu para casa. Sabia exatamente o que ia cozinhar.

Picou seis dentes de alho e salteou cogumelos portobello com chouriça de sangue. Enquanto a o linguini cozia, tostou lâminas de amêndoa, ralou um pouco de parmesão para uma taça e bateu três ovos. Escorreu a massa que misturou com os cogumelos e a chouriça, temperou com endro e, por cima, deitou os ovos. Mexeu bem. Colocou tudo numa taça, salpicou com as lâminas de amêndoa e o queijo ralado.

A campainha tocou no instante em que colocava o almoço na mesa. Apressou-se a tirar o vinho rosé do frigorífico e foi abrir a porta, agarrando-a com força para controlar os nervos.

Não conseguiu esconder a sombra de desilusão quando viu sair apenas Mena do elevador. Acedera a alguma aproximação, mas mantinha uma barreira clarividente. Protegia a família, o presente e o futuro. Eram apenas Mena e Sofia, uma ligeira versão atual do passado.

– Cheira bem – comentou Mena, encaminhando-se para a sala.

Sentaram-se as duas, sem saber por onde começar.

Serviram-se e provaram a primeira garfada. Partiriam daí.

Essa boca linda

Entrou no carro dele com a cabeça protegida da chuva que começara a cair naquele momento, sincronizada com o seu horário de saída. Deu-lhe um beijo fugidio, preocupada em recompor o cabelo levantado pelo vento antes que ele a observasse com atenção.

Tinham combinado ir comer qualquer coisa rápida e dar uma volta por determinadas lojas que ele lhe enunciara detalhadamente, explicando o que pretendia comprar. Mas ela, absorta no movimento hipnotizante da boca dele, ignorara as palavras que dela saíam, prestando, apenas, atenção à musicalidade da sua voz.

Fechou a pala com o espelho onde verificara o estado do seu aspeto e olhou-o inquisidoramente, esperando que arrancasse com o carro.

Ele respondeu-lhe:

– Estou à espera de que me dês um beijo em condições.

Em vez de virar para a direita no cruzamento, ele seguiu com o carro em frente, em direção à praia.

– Não ias comprar… qualquer coisa que nunca cheguei a saber o que era?

Ele riu-se:

– Tens de começar a prestar atenção às coisas que eu te digo.

– Tu distrais-me – confessou ela, com um sorriso.

Ele riu-se novamente e estacionou o carro.

A chuva caía desesperadamente sobre o tejadilho, escorrendo pelos vidros fechados, fundindo-se, lá ao longe, com o mar revolto que desfilava sem qualquer ordem diante dos seus olhos.

Ele abraçou-a, puxando-a para si e pousando-lhe um beijo no pescoço. Ela, de olhos fechados, inalou-lhe o perfume e aconchegou-se naquele abraço terno.

Deixou-se ficar assim, mesmo quando a perna torta começou a ficar dormente, sentindo apenas o calor do corpo dele aquecer o dela, ouvindo-lhe as batidas do coração e a respiração tranquila.

Sorriu ante essa constatação: ele, com os braços envolvendo-a a ela, no meio daquele temporal na pausa de um dia de trabalho, estava tranquilo.

Gostava dele de uma forma que não conseguia pôr em palavras. Há palavras para o descrever, sim: gosto de ti, adoro-te, amo-te, com diversos advérbios de quantidade e de intensidade disponíveis para o acentuar, mas não chegavam. Não. Em todo o dicionário não havia termos que conseguissem traduzir verbalmente aquela necessidade dele, aquela vontade de ser parte integrante da sua vida, de originar vida com ele, de estar ao seu lado nos momentos relevantes e em todos os outros. Não havia, sobretudo, algo que expressasse a plenitude que experienciava quando estavam juntos, encapando um receio constante de que esse tempo partilhado fosse efémero.

Ele revestia-lhe a vida da serenidade que passara tanto tempo a procurar, ainda que, quando o cérebro se ligasse, sentisse a tal onda de medo de que um dia podia não voltar a vê-lo.

Desfazendo o abraço, viu-lhe aquele sorriso. Qualquer um deles era bonito, formado por aqueles lábios desenhados ao mais ínfimo pormenor, detalhadamente pensados, para que nada fosse deixado ao acaso. Mas era aquele que a enchia de um amor imenso, que punha o seu coração a dar pulos de alegria dentro do peito.

Ligeiramente corado, ele contraía os lábios, fechando-os, para que o sorriso não se rasgasse, quase como se guardasse um segredo. As bochechas tremiam-lhe e os olhos, com um brilho tão intenso, diziam quase tudo aquilo que a sua boca não conseguia pronunciar.

Antes de poder perguntar-lhe “o que foi?”, ele disse:

– És bonita e eu gosto de ti.

Ela soltou dois risinhos e aninhou-se-lhe no peito, movendo-se para cima e para baixo ao ritmo da sua respiração.

Copa de luz

Processed with VSCO with m3 preset
Fotografia @saratrigocalheiros

– O que queres ser quando fores grande?

– Quero ser professora de bebés. E pentear os cabelos das meninas. E pintar os lábios às senhoras. E tu?

– Eu já sou grande!

Entre gargalhadas, a menina retorquiu:

– Claro que não és! És muito pequenina – apontou-a, sublinhando a evidência. – Então, o que queres ser quando fores grande?

– Feliz.

– Oh, madrinha… isso é resposta de velhinhos.

– Mas é isso que eu quero ser, fofinha.

O dia 14 de setembro de 1985 foi, ao mesmo tempo, o dia mais infeliz e o dia mais feliz da minha vida. Na realidade, o intervalo de tempo entre o meio-dia e meia e as duas e vinte e três revolucionou o rumo da minha existência, começando com a confirmação da minha suspeita de que algo de errado se passava comigo: não poderia ter filhos.

A duração da viagem de autocarro foi o tempo de que precisei para chorar a destruição do meu sonho de infância, da minha missão de vida. Cheguei então junto da tua mãe, que me esperava à porta de casa, com um ramo de flores na mão.

– Parabéns! – disse-me, deixando-me atónita.

– Porquê?

– Porque vais ser tia. E madrinha!

E foi ali, à porta da tua primeira casa, que as lágrimas me caíram novamente pela cara abaixo. Estas de redenção, de emoção, de felicidade e de um amor que, vim a descobrir mais tarde, só aumentaria.

 

As ruas inclinadas desembocavam todas numa ampla praça diante do rio salpicado de barcos – grandes e pequenos – atracados. O sol incidia sobre a água, espalhando o seu brilho estival sem critério.

Lado a lado, Laura e Cláudia passeavam vagarosamente, apreciando como que pela primeira vez as montras com artigos destinados aos turistas: peças em cortiça, postais, fotografias, ímanes e azulejos. Todas as semanas descortinavam ou redescobriam um canto da cidade, culminando sempre a viagem num copo de groselha ou chá, consoante a temperatura, tomado numa esplanada. E era aí, despreocupada e mais ciente de si, que Cláudia se tornava numa pessoa melhor, ainda que não visível a olho nu, perante as opiniões e os testemunhos da madrinha.

– És feliz? – A pergunta de Cláudia não teve introdução nem eufemismos. As duas palavras foram proferidas em cru, veiculando precisamente a intenção desejada.

Laura sorriu levemente, concedendo-se uns instantes para refletir.

– Sou. Porque perguntas?

– Porque era isso que querias ser quando fosses grande. E embora continues a ser pequenina, queria saber se tinhas alcançado tudo o que querias.

Laura estudou aquela jovem diante de si, com uns grandes olhos castanhos enaltecidos por longos cabelos escuros. Devolvia-lhe o olhar penetrante, sorrindo levemente com uns lábios pintados de cor-de-rosa. Conseguia ver nela traços do bebé que vira crescer desde os primeiros minutos de vida e, mais do que enchê-la de orgulho, tranquilizava-a descobrir nela uma mulher bem-sucedida, afável, que herdara de si a preocupação pelos outros e a capacidade de ver sempre o melhor lado de qualquer situação.

– Alcancei, minha querida. Há sempre coisas que se quer fazer, objetivos que se quer atingir, viagens que falta fazer. Mas isso são extras.

Tinha uma família maravilhosa, composta por um marido, uma irmã, um cunhado e, claro, uma afilhada. Trabalhava na sua área de intervenção predileta e dedicava-se a diversas causas sociais, pois sabia que a sua experiência de vida e a tranquilidade com que acordava todos os dias mereciam e deviam ser aplicadas utilmente na melhoria da qualidade de vida de outros menos favorecidos.

– Vê-se em ti – admitiu a afilhada. – Mas queria ter a certeza. Quando for grande quero ser como tu.

– Oh, minha querida. Tu já és como eu.

Sorriram as duas, formando uma cova em cada bochecha rosada e afunilando o queixo.

Ver-te crescer é tanto um privilégio como uma tortura. O tempo foge-nos, mas, simultaneamente, aproxima-nos. Revejo-me em ti, num reflexo mais aperfeiçoado, mais bonito e mais delicado de mim mesma, com ambições, preocupações e interesses semelhantes.

Ofereci-te hoje a tua primeira máquina fotográfica e arrastámo-nos imediatamente para a rua. Fotografaste-me, ao mar, às rochas, ao sol escondido por trás das nuvens, aos bebés que corriam atrás das gaivotas. E eu fotografei-te a ti, entregue à tua nova paixão, capturando, finalmente, aquilo que mais amas: a vida.

Embora me sinta como tua mãe, tive uma sorte enorme por não o ser porque, quando chegaste à idade crítica da adolescência, em que, invariavelmente, as meninas se afastam das mães, continuaste a contar comigo. E eu continuei lá para ti.

Deixei de te ensinar cantigas como a da boneca que veio de Paris, deixámos de pentear os teus bebés a fingir, mas crescemos juntas.

E sempre que te digo que te amo, meu amor, é verdade. É a minha maior verdade.

Agora que o nosso tempo está a chegar ao fim, sou e tenho aquilo que sempre quis. Deixo em ti o meu legado, o meu futuro. E nestas páginas encontras o teu retrato. Sempre que te esqueceres de quem és ou se te sentires desamparada, lê-as. Fala comigo. Nunca vais ter de ficar sozinha.

De joelhos, sentada sobre os calcanhares, Cláudia abria a mala de viagem de couro castanho que a madrinha lhe deixara sobre a sua cama quando fora internada pela derradeira vez. Não conseguia imaginar o sofrimento em que vivera os últimos meses de vida, especialmente porque o camuflara em palavras e atitudes. Admirava-lhe a garra, a devoção à vida e às pessoas, sentindo-se grata por cada gesto, por cada som, por cada cor, por cada luz.

Cláudia interrogara-se se Laura seria feliz. Naquele momento tinha a certeza de que até na hora da morte fora feliz.

Por baixo da máquina fotográfica que tantas vezes vira Laura manusear, embrulhada em papel de seda, encontrou uma pequena caixa de papel. Abriu-a e, dentro, descobriu três cadernos grossos, cada um com uma capa colorida com um pinheiro desenhado à mão. Folheou o primeiro e percebeu tratar-se de um diário, escrito para uma segunda pessoa que, com alguma surpresa e comoção, percebeu tratar-se de si mesma.

Nos três livros encontrou a história da sua vida até há duas semanas atrás, sob a perspetiva daquela mulher que admirava e que ambicionava eternizar.

Sempre lamentara a sua proibição de ser mãe e que isso a consumisse interiormente sem que ninguém se apercebesse, mas ao longo daquelas páginas manuscritas, percebeu que Laura tivera, em Cláudia, uma filha.

Era uma responsabilidade enorme da qual não sabia estar à altura, mas faria o seu melhor.

Entrou em casa, atravessou o quintal e abriu a porta da arrecadação, de onde saiu empurrando um carrinho de mão carregado de utensílios de jardinagem e um pequeno pinheiro. Escavou na terra, em frente à porta da entrada para a cozinha, um buraco no qual plantou o pinheiro.

– Só me falta plantar uma árvore – comentara Laura alguns meses antes, encostada ao tronco de uma acácia para se abrigar da intensidade do sol de verão.

– Qual seria?

Pensara um bocadinho e respondera:

– Um pinheiro. Assim tinha Natal o ano todo.

Cláudia colocou uma grinalda de luzes sobre a copa da pequena árvore e acendeu-a, apreciando o resultado final. Não mais a apagou e naquele pequeno jardim num arredor do Porto era Natal o ano todo.

Super-homem

pexels-photo-e1482250780663

[Texto originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita]

Recostado no sofá negro, com uma caneca de chocolate quente na mão e uma manta polar pousada nas pernas, olhou lá para fora, através das janelas gradeadas, prestando atenção aos padrões luminosos das árvores de natal vizinhas. As luzes roxas, verdes, azuis e vermelhas refletiam difusas na água da chuva que caía copiosamente, espalhando de uma forma irónica a beleza melancólica da noite de Natal.

Gostaria de poder estar em casa com a família, provavelmente acabada de sentar à mesa para a dança das travessas de bacalhau, batatas e ovos cozidos, numa azáfama infantil de felicidade de quem se reúne pelo menos uma vez no ano. Em vez disso, estava naquele contentor com mais quatro colegas de trabalho, de bata branca pendurada a caminho da porta, por cima da mesa onde estavam pousadas as chaves do carro e da ambulância, à espera da chamada de emergência.

Molhou um pedaço de bolo-rei na mousse de chocolate e trincou-o, como sempre apreciando o esforço e cuidado da enfermeira que o oferecera, sem que ninguém pudesse adivinhar que não ficara alheio à sua secura.

Na televisão passava, para manter a tradição natalícia, o primeiro Sozinho em Casa, que já vira vezes sem conta com os filhos enquanto cresciam. Fechou os olhos, entregando-se ao cansaço e desinteresse de quem foi a vida toda roubado daquele momento de família. Em parte por opção, bem o sabia.

O rádio despertou-o impiedoso, dirigindo-o em corrida para o carro que, com a sirene ligada, cortou as ruas silenciosas e quase desertas da cidade.

Chegado à morada indicada, a porta foi aberta por uma bela rapariga com os cabelos apanhados numa trança ao lado, claramente arranjada para a ocasião.

– A minha mãe está lá dentro. – Fez um trejeito de desprezo, indicando ao médico a passagem. – Desculpe, eu não achei necessário, mas ela insistiu que se sentia mal. Diz que está a ter um ataque cardíaco, mas ao tempo que isto já começou, já teria morrido. Só está a fazê-los perder tempo. E logo hoje…

Atravessou o hall, descobrindo um homem novo e duas crianças sentados à mesa de jantar iluminada pela árvore que protegia embrulhos coloridos. Seguindo pelo corredor adiante, desembocou num pequeno quarto aquecido, no qual se encontrava uma senhora de meia-idade de costas para a porta, com as mãos apoiadas na beira da cama, arfando descontroladamente.

Pediu à enfermeira que afastasse a jovem e abeirou-se da senhora.

– Minha senhora, consegue ouvir-me? Sou o doutor Filipe e estou aqui para a ajudar.

Ouvia-lhe a respiração ofegante e soluços que lhe pareceram camuflar algumas palavras que não conseguiu compreender. De vez em quando levava a mão ao peito, pelo que, fazendo sinal à enfermeira, deitaram a senhora na cama, de barriga para cima.

– Vou ausculta-la, está bem? Tente respirar fundo.

Ouviu-lhe a respiração, mediu-lhe a pulsação e as tensões e pôs de parte a hipótese de enfarte.

Encostaram a senhora à cabeceira da cama, tapando-a com um cobertor pousado na cadeira, para tentarem controlar os seus tremores.

– Dona Lídia, o que sente?

– Dói-me o peito, doutor. – Tornou a levar a mão junto ao coração, para exemplificar, enquanto lágrimas lhe caíam descontroladamente pela face. – E a cabeça… Sinto-a leve. Não, pesada… E estou a ver mal, muito mal. Vejo tudo a andar à roda.

Puxou a cadeira para poder sentar-se e ficar com a cara à altura da da senhora.

– Lá dentro, na sala, é a sua filha e os seus netos?

O rosto da senhora fechou-se quando acenou afirmativamente com a cabeça.

– Jantou com eles?

A senhora não respondeu. Em vez disso, limpou os olhos com as costas da mão enrugada, revelando umas unhas cuidadas e impecavelmente pintadas. No anelar esquerdo encontravam-se duas alianças douradas.

O médico olhou em volta. Junto à janela, numa mesa redonda, estavam expostas diversas molduras. Nalgumas viam-se dois bebés, mais tarde rapazinhos, noutras relatava-se o casamento da rapariga que abrira a porta. Mas, na sua maioria, a mesa era dominada pelo retrato de um senhor de olhos negros e profundos sulcos junto aos lábios, indubitavelmente o marido da senhora que se encontrava reclinada naquela cama.

– Esta casa é da senhora?

Respirando um pouco mais tranquilamente, ela anuiu:

– A minha filha mora aqui comigo com o marido e os dois pequenos.

– Então está aqui dentro agora porquê?

– Porque estava a sentir-me mal. Muito mal, doutor. Palpitações…

– Onde estava quando começou a sentir-se assim?

A senhora franziu o sobrolho, olhou na direção da porta a medo e respondeu baixinho:

– Na… na cozinha…

– A cozinhar?

– Não… A comer.

– E a sua filha e os seus netos, onde estavam? – perguntou o médico, adivinhando a resposta.

– Na sala. A jantar.

– Porque é que estavam separados?

A respiração da senhora voltou a acelerar, impedindo-a de falar e soltando grossas lágrimas dos seus olhos pequenos.

– Ai! Ai! Ajude-me! – Pousou uma mão no peito e a outra no ombro do médico. – Ajude-me, que está a voltar.

O médico apertou-lhe suavemente as mãos com as suas e disse-lhe, num tom de voz apaziguador:

– Ouça, está tudo bem com o seu coração. Isso não é um enfarte. Respire fundo e olhe para mim. – A senhora obedeceu. – Já acabou de jantar? – Ela anuiu. – Comeu sobremesas? – Ela negou com a cabeça. – Quer alguma?

Pediu à enfermeira que fosse buscar um prato com rabanadas e sentaram-se os três no quarto aquecido a saborear os doces de Natal.

– Foi a senhora que as fez? – Quis saber a enfermeira.

– Fui. Com a receita da minha mãe. É já muito antiga, mas sai sempre muito bem. O truque é um bocadinho de licor de mel.

Cerca de uma hora mais tarde, o médico autorizou a enfermeira a regressar à base:

– O seu turno já acabou, pode voltar para casa.

– Tal como o seu – retorquiu ela. – Mas não vai a lado nenhum, pois não?

– Não – admitiu o médico.

– Pois eu também não.

– Têm de ir – disse a senhora a medo. – É Natal, têm de estar com as vossas famílias. – Era fácil perceber que a respiração da senhora, embora bastante mais tranquila do que quando ali tinham chegado, voltava a alterar-se.

– Temos nós e tem a senhora. No entanto, está aqui escondida na sua própria casa, enquanto a sua filha está lá dentro com o marido e os filhos.

– Deixe-a estar, coitadinha. Ela não tem trabalho e anda muito ocupada com os meninos. Fica cansada e irritadiça, por isso às vezes eu sei que tenho de lhe dar espaço.

– Acha isso bem? – Ralhou a enfermeira. – Reclusa na sua própria casa?

– Enfermeira Mónica… – advertiu baixinho o doutor Filipe. – O que é que o Natal significa para a senhora?

A paciente voltou os olhos para a mesa com as fotografias:

– A reunião das famílias. O amor. A felicidade. A vida.

– Sente alguma dessas coisas? Agora, aqui…

As lágrimas voltaram a cair-lhe pela cara abaixo:

– Não…

O médico e a enfermeira ampararam, mais por conforto do que por necessidade, a senhora e conduziram-na ate à sala, onde as crianças desembrulhavam os presentes. Os quatro olharam-nos confusos e a filha da senhora aproximou-se:

– Doutor, o que se passa com a minha mãe? É só fita, não é?

A enfermeira conduziu a senhora até ao sofá, enquanto o médico respondia, no tom de voz mais firme e, ao mesmo tempo, baixo, de que foi capaz:

– A sua mãe é uma senhora sensível, em luto pela morte do marido, que tem apenas uma filha e dois netos. Ainda assim, passou a noite de Natal fechada no quarto, sozinha, com medo de estar a ter um enfarte. Não é só fita. É carência. Trate de lhe dar vida, que tem um teto e comida na mesa graças a ela que, em troca, só recebeu vinte anos mais do que os que na realidade tem. Trate-a bem. Hoje foi só um ataque de ansiedade. Da próxima pode ser ainda mais sério do que isto.

A rapariga olhava o médico incrédula, balbuciando sons de incompreensão.

– É Natal, não é? – questionou o doutor Filipe.

– Sim – respondeu ela, atónita.

– Então façam o que as famílias fazem no Natal. Antes que a sua mãe se farte da sua ingratidão e não lhe ofereça mais Natal.

Substituiu a bata por uma gravata. O frio que banhava a cidade conferia-lhe uma tranquilidade apocalíptica. Meteu a chave na porta e mergulhou no calor da casa animada por conversas e músicas. Ainda não pousara o sobretudo e já era acolhido por abraços e beijos de três adolescentes:

– Demoraste! – notaram.

– Teve de ser. Vamos abrir os presentes?

Estrelas numa tarde de verão

delicate-arch-sunset-rock-formation

[Post originalmente publicado em CPR – A Reanimação da Escrita – o mote é a 7ª frase da 7ª página do 7º livro da minha estante: A Bruxa de Oz, de Gregory Maguire]

“Era som sem melodia – como música onírica, recordada pelo seu efeito, mas não pelas suas angústias e recuperações harmónicas.”

Entrava-lhe diretamente na alma, ignorando o ouvido, apoderando-se de um corpo pesado que dançava de forma quase cómica, solta, privado de qualquer coordenação. Os olhos, num estado de descontrolo, traíam o transe a que se abandonava sob o céu estrelado de uma tarde de verão, que o atraía para o abismo da felicidade extrema, sem limites nem barreiras.
Exausto do esforço de colher estrelas com as mãos e a boca, às vezes as três ao mesmo tempo, deixou-se cair pesadamente no relvado ao lado de duas belas mulheres que lhe sorriam. Preferia-as mais novas, mas que se lixasse: eram duas, não podia fazer-se de esquisito, pelo que as abraçou simultaneamente, sob o olhar admirador dos amigos. Podia tudo, conseguia qualquer coisa, desde que acreditasse em si.
Um corpo sem peso, anacrónico e diacrónico, em simbiose constante com a natureza e os quatro elementos. Era terra, água, ar e fogo. Não, era sismo, tsunami, furacão e incêndio. Era a força que controlava a força. E era a tranquilidade depois do temporal. Era a promessa da reconstrução e a recordação da catástrofe.
Era uma ressaca monumental, com tudo a que tinha direito: enjoos, dores de cabeça, fraqueza, taquicardia, desidratação, intransigência total e completa com tudo. Incluindo consigo mesmo. Sobretudo consigo mesmo.
Não reconhecia o sofá onde estava deitado, embora tivesse a certeza de que não era o seu. Certo?
Não, não era. Encontrava-se numa sala demasiado limpa e arrumada para ser a sua.
– Então, pá? Já acordaste? Estávamos a ficar preocupados contigo. São quase cinco e meia.
A voz ressoou-lhe dentro do cérebro, fazendo ricochete nas paredes do crânio e saindo sob a forma de um jorro fétido pela boca, estilhaçando-se pelo chão.
– Merda! – Uma voz feminina juntou-se à tortura, provocando mais um espasmo do estômago vazio, que continuava revoltado com o mundo.
– Bebe isto. – A primeira voz, masculina, fez-se acompanhar de um copo de água com algo efervescente, que recusou inicialmente, mas que foi obrigado a aceitar. – Correu bastante mal, ontem! – O riso forçado traduzia uma crítica velada que o cérebro entorpecido não detetou.
Recordou-se vagamente de retalhos da véspera, em vários cenários diferentes, não sabendo, em nenhum dos casos, como se deslocara. Levou a mão ao malar direito, com um esgar de dor.
– A certa altura abraçaste-te a uma mulher e ao filho. Quando tentaste abrir a camisa da mulher, o miúdo deu-te um arraial de porrada – explicou a voz masculina.
Oh, então fora isso…
A rapariga a quem pertencia a voz feminina revelou-se quando começou a limpar o vomitado que jazia à sua frente, numa poça amarela fedorenta. Reconheceu-a.
– Gosto muito de ti, mas não posso tomar conta de ti todas as semanas. Um dia entras num hotel e atiras-te para a piscina, no outro deitas-te em cima de montes de lixo e achas que és uma espécie de poeta da natureza. Não podemos andar atrás de ti. Tens mais que idade para te saberes comportar.
– Cala-te – ordenou, levantando-se do sofá. – Ninguém te pediu nada.
– És um perigo para ti e para qualquer pessoa, quando te pões a tomar cenas e a beber e a fumar, como se fosses um puto que se apanha pela primeira vez longe dos pais.
– Cala-te! – gritou, erguendo a mão e avançando para ela.
Foi a vez de o dono da voz masculina se materializar entre os dois, empurrando-o com facilidade para trás:
– Vai-te embora!
Saiu, praguejando agarrado à cabeça assim que bateu violentamente a porta atrás de si.
– Vão todos para a puta que vos pariu, mais os vossos…
Esqueceu-se da palavra, mas não se demorou a procura-la.
Estrangulado por uma infelicidade pungente, desejou poder morrer sem ter de se esforçar para tal.
Nem para isso tinha forças. Era um inútil, uma farsa. Quimicamente alterado, era a conceção de um plano infalível e heroico que, sóbrio, era um falhanço estridente. A subversão de uma realidade que não tinha qualquer espécie de razão para existir.
A caminho de casa, despiu a t-shirt, revoltado contra aquele calor insuportável, por onde nem uma aragem soprava. Viu o seu tronco nu no reflexo de uma montra, diante do qual parou, arranhando a pele da barriga com as unhas, ao mesmo tempo que soltava um urro de autodesprezo. Não tinha cabeça, não tinha cara, não tinha altura, não tinha dinheiro. Sob o seu controlo tinha, apenas, quanto comia e quanto exercitava, mas até nisso tinha de dar-se como derrotado. Passara uma noite inteira sem comer, graças às cenas que lhe tinham sido fornecidas, e nem assim conseguia alcançar o que ambicionava.
Mudara de país sete vezes nos últimos três anos, achando sempre que era a forma correta de fugir às adversidades. De cada uma das vezes escolhia um sítio qualquer no mapa, desde que tivesse dinheiro para a viagem, aceitava o primeiro trabalho que lhe fosse proposto, inscrevia-se num ginásio e espalhava o seu charme até conseguir reunir um grupo significativo de amigos. Assim que os primeiros reveses se começassem a revelar, partia sem aviso. Uma chamada de atenção paternalista, um objetivo muscular inatingido dentro do tempo, uma falha no trabalho tornavam-no suficientemente impaciente para se pôr a andar para o novo destino, onde tudo correria melhor. Tudo correria, finalmente, bem.
Contudo, acabava sempre por descobrir, umas semanas ou uns meses mais tarde, que dentro da mala levara, bem protegido pela roupa, tudo o que fazia de si uma fraude.
Voltava, então, a sentir a intolerância ardente ao mundo, às pessoas e a si mesmo, fazia as malas e desaparecia. Mas nunca chegava a desaparecer, porque o corpo transportava a alma frágil e destruída. E rejeitavam-se mutuamente, incapazes de dar tréguas.